As mudanças aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS em outubro, que passaram a vigorar em novembro, provocaram forte reação entre trabalhadores e instituições financeiras.
Levantamento mostra que a maior parte dos beneficiários usa o saque aniversário para pagar dívidas urgentes, e que a proibição de parcelas pequenas derrubou quase todo o mercado de crédito garantido, segundo representantes do setor.
Os dados são de uma pesquisa feita pela AtlasIntel a pedido da Associação Brasileira dos Bancos, ABBC, e da Zetta, conforme levantamento da AtlasIntel a pedido da ABBC e da Zetta.
O que mudou e como os trabalhadores reagiram
As regras aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS incluíram carência de 90 dias entre a opção pelo saque aniversário e a operação de antecipação, limitação do número de parcelas anuais a até cinco até outubro de 2026 e a três depois desse mês, além da restrição a uma operação por trabalhador, e a prestação mínima de R$ 100 e máxima de R$ 500.
A pesquisa da AtlasIntel foi realizada entre 16 e 23 de novembro, com 4.243 respondentes que já tiveram experiência no mercado formal de trabalho, por meio de mensagens em sites e redes sociais, a margem de erro é de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo e o nível de confiança é de 95%.
Do total dos entrevistados que pediram o saque aniversário, 70% disseram já ter recorrido à antecipação via empréstimo.
Para que o dinheiro foi usado, e o mito das apostas online
Entre os que pediram o saque aniversário, 59% disseram usar o valor retirado para pagar dívidas urgentes ou mais caras, 19,9% para despesas com saúde e medicamentos, e 11% para comprar bens de uso pessoal, como eletrônicos e roupas.
Chama atenção que 9,6% sacaram para aplicar o dinheiro, e que, segundo a pesquisa, foi zero o percentual dos que disseram ter usado o dinheiro para apostas online.
Em relação aos que já anteciparam o saque com empréstimos, 69,6% afirmaram ter usado o recurso para dívidas urgentes, 28,1% para saúde e medicamentos, e 7,1% para bens de uso pessoal, novamente sem respostas apontando uso para apostas online.
Ricardo Barbosa, economista-chefe da Zetta, destacou que “Os brasileiros não usam o dinheiro do saque aniversário para fazer apostas”.
Rejeição às limitações, números e projeções do setor
Dos trabalhadores que conhecem a modalidade, 65,7% acham que as regras que limitam a antecipação prejudicam o trabalhador, e 34,3% acreditam que beneficiam.
Entre os que já usaram a linha de crédito, 86,96% se disseram contrários ao fim da antecipação do saque aniversário, com apenas 13% a favor.
Sobre a limitação de uso a apenas uma vez por ano, 44,7% discordaram totalmente e 35% discordaram parcialmente, somando 79,7% em desacordo.
Quanto ao piso de R$ 100 na prestação, 41,9% discordaram totalmente e 35,8% parcialmente, totalizando 78% de discordância, e sobre o teto de R$ 500 por prestação, 51,5% discordaram totalmente e 32,3% parcialmente, totalizando 84% de discordância.
As medidas provocaram uma redução imediata de 80% no volume de empréstimos feitos pelos bancos com garantia nessas operações, em outubro haviam chegado a R$ 3 bilhões por mês até outubro de 2025, e em novembro, quando entraram em vigor as medidas, o volume caiu para R$ 600 milhões, segundo levantamento da ABBC e da Zetta.
A ABBC projeta que esse número atinja R$ 210 milhões em dezembro deste ano e R$ 12 bilhões em dezembro de 2027, uma queda de 96%, levando ao fim da modalidade, afirma Alex Gonçalves, diretor técnico da ABBC.
Alex Gonçalves afirmou, “Ela tende a deixar de existir”.
Quem perde acesso, comparação de custos e impacto econômico
Segundo a ABBC, existem 134 milhões de trabalhadores com conta ativa do FGTS com saldo, mas somente 49 milhões de celetistas com carteira assinada, que poderiam usar o consignado privado.
“Temos 85 milhões de trabalhadores que não conseguiriam usar o consignado e perderam a opção do crédito via FGTS”, disse Gonçalves, destacando que a estratégia do governo seria direcionar o público ao consignado privado.
O custo médio da linha da antecipação do FGTS, de 1,79% ao mês, é inferior ao consignado privado, de 3,79% ao mês, e, segundo a ABBC, a linha do FGTS não compromete a renda do trabalhador como o consignado, que é descontado mensalmente no salário.
Gonçalves comparou outras opções de crédito para quem não tem acesso ao consignado privado, citando taxas como 6,66% ao mês no consignado normal, 9,25% no cartão parcelado, e chegando a 19,95% ao mês no crédito para negativados, lembrando que 74% do público está com o nome sujo.
A ABBC calcula que o impacto negativo do fim da linha do saque aniversário na economia, de R$ 35 bilhões, será maior que o efeito positivo da redução do imposto de renda, de R$ 32 bilhões, e atingirá mais trabalhadores.
Segundo os cálculos da ABBC e da Zetta, há 40 milhões de trabalhadores cadastrados para usar o saque aniversário, dos quais 70%, ou 28 milhões, já usaram o crédito para antecipação, enquanto os beneficiados pela redução de imposto seriam cerca de 16 milhões.
Repercussão e próximos passos
A ABBC informou que conversou com a Casa Civil para tentar reverter as limitações, sem resposta até o momento.
Gonçalves afirmou que, nas conversas, o governo se mostrou surpreso com o impacto do piso de R$ 100 para novos empréstimos, e que 78 pontos percentuais da queda de 80% nas operações em outubro foi justamente de empréstimos cuja prestação era inferior a R$ 100.
Os representantes do setor pedem que o governo reavalie as medidas, argumentando que a linha atende um público que não tem acesso a opções mais baratas de crédito, e que o fim ou a inviabilização dessa modalidade pode ampliar o uso de modalidades mais caras e prejudicar a parcela mais vulnerável da população.
Reportagem com dados e declarações da ABBC, da Zetta e da pesquisa AtlasIntel.