Banco do Brasil (BBAS3) projeta recuperação lenta do agronegócio após 2025, considerado o “pior ano da história” pela inadimplência recorde. Analistas apontam para um cenário de “normalização gradual” nos resultados, com impactos mais fortes a partir de 2026/27.
O Banco do Brasil (BBAS3) apresentou seu plano estratégico e atualizações sobre o segmento de agronegócio durante o “BB Day”, evento voltado para investidores. A principal preocupação do mercado, a inadimplência recorde no crédito rural, levou a gestão a descrever 2025 como o “pior ano da história” do banco.
Contudo, a CEO Tarciana Medeiros afirmou que as medidas de reestruturação implementadas em 2025 só afetarão plenamente os resultados do banco no ciclo 2026/27. Essa perspectiva, de acordo com o Bradesco BBI, indica que a normalização dos resultados ocorrerá de forma gradual, mesmo com o evento sinalizando o fundo do ciclo de crédito.
O JPMorgan, por outro lado, considera que as informações divulgadas não foram suficientes para alterar sua visão sobre o ponto de inflexão do ciclo de crédito no agronegócio, citando a visibilidade ainda limitada. A casa mantém a recomendação “neutra” para as ações, com projeção de lucro por ação em 2026 abaixo do consenso de mercado.
Recuperação em “W” e cautela gerencial marcam o futuro próximo
O JPMorgan alertou que 2026, especialmente o primeiro semestre, não será um ano fácil para o Banco do Brasil. A gestão reconheceu que a recuperação do agronegócio pode ter um formato mais longo em “W”, em vez de uma recuperação rápida em “V”. Este cenário, embora não totalmente surpreendente, é visto com cautela pelo mercado.
A CEO Tarciana Medeiros caracterizou 2026 como um ano de reestruturação e recuperação gradual, com um começo ainda desafiador. O ano de 2025 foi explicitamente apontado como o “pior ano da história do banco”, reforçando a necessidade de um período de ajuste.
O Bradesco BBI destacou que a gestão reconheceu a necessidade de tempo para que a melhoria na originação e análise de crédito se traduza em lucros, o que sustenta uma visão conservadora para o curto prazo. A instituição também ressaltou o alto nível de provisionamento para o agro, elevado de R$ 800 milhões para R$ 8 bilhões, como uma medida de resposta à crise.
Novos modelos de crédito e safras legadas dificultam a normalização
O Banco do Brasil está em processo de “recalibragem” de seus modelos de crédito, apertando critérios e aumentando a exigência de garantias reais para buscar o reequilíbrio. No entanto, o Bradesco BBI avalia que a normalização não será rápida, pois as safras legadas ainda dominam os vencimentos de curto prazo.
Em abril de 2026, apenas 20% dos créditos originados refletirão a nova estrutura, enquanto 80% ainda pertencem ao processo de crédito anterior. Essa transição lenta é um fator chave para a normalização gradual esperada.
A pontualidade de pagamentos, que caiu para 92% em 2025, frente a 99% em 2023, é outro indicador de atenção. O banco projeta uma recuperação para 95% em 2026, ainda abaixo dos padrões históricos, evidenciando os desafios no segmento de agronegócio.
Guerra no Irã e El Niño como riscos adicionais para o agro
A instabilidade geopolítica, como a guerra no Irã, representa um risco adicional para a retomada do crédito no agronegócio. O aumento de cerca de 80% nos preços de fertilizantes como fosfato e ureia desde o início do conflito já está incorporado nos modelos de crédito do BB.
Caso os preços dos insumos não se normalizem, especialmente com as compras de junho e julho, as margens dos produtores podem ser ainda mais comprimidas, aumentando a necessidade de refinanciamento e atrasando a recuperação do crédito rural. Essa inflação de insumos continua sendo um risco-chave para o setor.
O JPMorgan também mencionou o monitoramento do El Niño, que pode apresentar riscos para 2027 devido a potenciais secas em algumas regiões do Brasil. Historicamente, os impactos na produtividade nacional e na inadimplência não são significativamente afetados em média, mas a concentração regional dos efeitos é um ponto de atenção.