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Brasil com mais de um cartão de crédito por pessoa: setor de pagamentos se aproxima da saturação com Pix e novas estratégias

Brasil ultrapassa um cartão de crédito por habitante e setor de pagamentos enfrenta saturação iminente

O Brasil atingiu um marco impressionante, com mais de um cartão de crédito ativo por habitante, evidenciando a centralidade deste instrumento no consumo das famílias brasileiras. Em 2023, foram registradas, em média, pouco mais de 40 mil transações por minuto, um volume que impulsiona a disputa acirrada entre bancos e fintechs pela concessão de crédito.

Embora as projeções de mercado ainda indiquem espaço para expansão no curto prazo, a crescente competitividade exige que as empresas desenvolvam estratégias mais agressivas para fidelizar os clientes. A busca por diferenciais e a adaptação a novas realidades de pagamento, como o Pix, moldam o futuro deste setor dinâmico.

Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as transações em cartão de crédito movimentaram R$ 3,1 trilhões em 2023, um crescimento expressivo de 14,5% em relação ao ano anterior. Esse desempenho contrasta com o do cartão de débito, que registrou uma variação positiva modesta de 0,2%, alcançando R$ 1 trilhão. A informação foi divulgada pela Abecs.

Expansão recorde e o desafio da principalidade

O volume expressivo de transações é sustentado por um número recorde de 243 milhões de cartões de crédito ativos no final do primeiro semestre do ano passado, de acordo com as estatísticas mais recentes do Banco Central. Com uma população estimada em 213,4 milhões de habitantes pelo IBGE, o país agora possui mais de um cartão de crédito por pessoa.

Esse cenário eleva a exigência dos consumidores, que já dispõem de múltiplas opções. De acordo com Boanerges Ramos Freire, sócio e presidente da Boanerges & Cia Consultoria, o mercado caminha para um ponto de saturação, onde a **principalidade** se torna o fator decisivo. O consumidor pode ter diversos cartões, mas sempre haverá um que concentra seu relacionamento principal e é usado com mais frequência.

Estratégias agressivas de emissores para conquistar e reter clientes

Diante da concorrência acirrada, os principais emissores de cartões de crédito têm intensificado a oferta de crédito para incentivar a preferência dos correntistas. Os quatro maiores bancos de capital aberto do país – Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil e Santander Brasil – fecharam 2023 com uma carteira de cartões de crédito somando R$ 373,7 bilhões, um aumento de 11,5% em relação a dezembro de 2022.

Instituições tradicionais focam em clientes de maior renda, oferecendo serviços exclusivos como acesso a pré-vendas de shows e salas VIPs em aeroportos. O Itaú, por exemplo, lançou sua versão do Visa Infinite Privilege, voltado para o público mais rico. O Bradesco firmou parcerias com a United e a rede de hotéis Marriott, enquanto pelo menos sete emissores planejam oferecer o Mastercard World Legend, posicionado acima da categoria Black. Para a classe média, bancos como o Santander oferecem opções sem anuidade e com cartões adicionais gratuitos, como o cartão FREE.

O Nubank, por sua vez, promoveu aumentos agressivos nos limites de seus cartões de crédito, utilizando inteligência artificial para identificar os beneficiários. Segundo o CEO da fintech, David Vélez, o volume de limites não utilizados avançou de US$ 18 bilhões para US$ 28 bilhões em um ano. Para a faixa de alta renda, com o cartão Ultravioleta, o Nubank atende 40% dos consumidores com renda mensal superior a R$ 12 mil, embora reconheça que muitos ainda não o utilizam como primário.

Pix e a ameaça à hegemonia do cartão de crédito

A popularização do Pix representa um novo e forte concorrente para a primazia do cartão de crédito no consumo. A integração do Pix com o crédito, conhecida como Pix Parcelado, tem o potencial de ampliar a competição e ameaçar a soberania do plástico, segundo análise da Fitch Ratings. A decisão do Banco Central de não regulamentar o produto deixou o mercado livre para definir taxas e condições.

A Fitch Ratings aponta que emissores e bandeiras precisarão se adaptar, criando diferenciais que agreguem maior valor aos cartões. O Pix Parcelado pode reduzir a participação de mercado dos cartões de crédito em pagamentos, especialmente nas transações de “parcelado sem juros”, potencialmente a custos mais baixos para consumidores e lojistas.

Projeções de mercado e a busca por diferenciais

André Mello, sócio da Bain & Company, ainda não considera o mercado de cartões de crédito saturado, mas estima um espaço para mais dois a três anos de crescimento. Ele ressalta que, embora ainda haja oportunidades, o volume transacionado por cartões de crédito está se aproximando de um patamar de saturação.

A competição intensa e a ascensão de novas formas de pagamento, como o Pix Parcelado, forçam as instituições financeiras a inovar e a buscar diferenciais claros para atrair e reter clientes. A capacidade de oferecer propostas de valor únicas e adaptadas às necessidades do consumidor será crucial para o sucesso no futuro do setor de pagamentos no Brasil.