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Brasil fiel da balança, entre Europa em choque e Oriente Médio em chamas, como agronegócio, terras raras e energia podem atrair investimentos apesar do risco fiscal

O cenário geopolítico global vive um ponto de inflexão, com a Europa pressionada por desafios internos e externos, e o Oriente Médio emergindo como foco imediato de risco.

Em meio a esse quadro, o Brasil surge com vantagens em setores-chave, mas enfrenta um “grande calcanhar de Aquiles”, o lado fiscal, que pode limitar oportunidades.

As avaliações que fundamentam essa leitura foram apresentadas por especialistas consultados pela Eurasia Group no podcast Outliers InfoMoney, conforme informação divulgada pela Eurasia Group no podcast Outliers InfoMoney.

Europa em choque e prioridades de defesa

A defesa da Ucrânia funcionou como um chamado a despertar para a Europa, impulsionando um consenso entre a elite política sobre a necessidade de reduzir a dependência do apoio militar americano e investir na indústria bélica.

Segundo a análise, há um reconhecimento de que os Estados Unidos não podem mais garantir sozinhos a segurança europeia, uma percepção agravada por dinâmicas políticas internas americanas, e pelo desprezo de líderes que colocam a Europa em segundo plano.

Esse contexto exigirá investimentos maciços em capacidades de defesa autônomas, e ao mesmo tempo a Europa encara desafios econômicos para recuperar competitividade e executar reformas estruturais.

Além disso, a opinião pública tem mudado de forma decisiva, e, como alertam os analistas, “a média de aprovação popular nos três principais países europeus, Reino Unido, França e Alemanha, é de apenas 21%, com o apoio a partidos populistas crescendo de 10% para 40-50% em 20 anos.” Essa reviravolta da opinião pública pode atrapalhar a execução de planos econômicos e de segurança.

Oriente Médio em chamas e o risco de escalada

O Oriente Médio é apontado como o “principal risco de cauda geopolítico nesse próximo mês, dois meses”. A grande questão de curto prazo é a possibilidade de uma ação militar mais ampla dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

A avaliação da Eurasia Group é de que a Casa Branca estaria inclinada a uma ação militar para, nas palavras dos analistas, “reduzir e fazer uma mudança do regime” iraniano, aproveitando um momento de fragilidade do Irã após conflitos recentes.

O risco de retaliação, caso o Irã se sinta encurralado, inclui tentativas de fechamento do Estreito de Hormuz ou ataques a instalações na Arábia Saudita, cenários que poderiam afetar o preço global do petróleo. Ainda segundo a análise, a capacidade do Irã de sustentar um bloqueio é limitada, e um eventual fechamento seria, provavelmente, “temporário”.

Brasil, oportunidades estratégicas e o desafio fiscal

Num mundo fragmentado, o Brasil aparece como um país com vantagens comparativas claras, o que pode torná-lo um importante parceiro para Europa, China, Índia e Canadá em busca de diversificação de fornecedores.

O país é descrito como uma “potência no agronegócio”, com enorme área cultivável, e também como uma “potência energética”, com produção de petróleo em ascensão. Além disso, possui a “segunda maior reserva de terras raras globais”, ativos que devem ganhar valor diante das preocupações com segurança alimentar, energética e de minerais críticos.

O fluxo de capital estrangeiro reforça esse atrativo, com mais de R$ 26 bilhões em janeiro apontados pelos analistas como indicador do interesse externo, e a valorização da bolsa brasileira refletindo essa percepção positiva.

No entanto, o diagnóstico não é só otimista. O principal risco interno é o fiscal, que pode minar a confiança de investidores. Se o próximo governo não enfrentar o problema da dívida e do gasto público, a trajetória pode se tornar insustentável.

Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia Group, prevê que, em caso de reeleição do atual presidente, é mais provável um “ajuste fiscal xoxo”, que reduziria a urgência para reformas profundas. Já a eleição de um candidato de oposição tenderia a um ajuste fiscal mais robusto.

Os analistas também alertam para o risco de um “equilíbrio de complacência”, onde um ajuste mínimo, combinado com um cenário externo benigno, ancore expectativas sem resolver problemas estruturais. A instabilidade institucional e episódios como a crise do Banco Master elevam a preocupação, sobretudo num contexto em que o investidor local encara um “altíssimo custo de capital”, com a taxa Selic a 15%.

O que isso significa para o Brasil e para investidores

O posicionamento do Brasil como parceiro desejável em cadeias de alimentos, energia e minerais críticos cria janelas de oportunidade para atrair investimentos, parcerias tecnológicas e maior presença diplomática.

Por outro lado, sem um ajuste fiscal credível e sem melhorar segurança jurídica, o país corre o risco de perder parte desse potencial. O dilema é claro: aproveitar a “liberdade” de não depender exclusivamente da China ou dos Estados Unidos, enquanto se resolve o nó fiscal que pode limitar a capacidade de o país converter vantagens estratégicas em crescimento sustentável.

O resultado desse mix entre cenário externo conturbado e forças internas determinará se o Brasil conseguirá realmente ocupar o papel de fiel da balança em um mundo cada vez mais fragmentado.