Economistas apontam sinais de ‘ritmo modesto’ na expansão de vagas de trabalho em 2026, mas mercado segue aquecido
A geração de empregos formais no Brasil em fevereiro apresentou um ritmo mais contido em comparação com o observado no início de 2025 e ao longo de 2024. Apesar da desaceleração, o mercado de trabalho demonstra resiliência, com saldo positivo em todos os setores produtivos, indicando um cenário ainda aquecido.
Os dados do Caged, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, revelam a criação de 255,3 mil novas vagas em fevereiro. Embora represente um avanço em relação a janeiro, o número é inferior aos 440 mil postos criados em fevereiro do ano anterior. No acumulado dos últimos 12 meses, o saldo positivo alcança mais de 1,05 milhão de novas vagas.
A leitura geral, contudo, é de que o ritmo de expansão está se tornando mais moderado. Especialistas alertam para uma possível desaceleração nos próximos meses, embora o mercado continue a oferecer oportunidades. A análise detalhada dos dados aponta para nuances importantes na composição dessas novas vagas, especialmente em relação à remuneração oferecida.
Desaceleração nos números interanuais preocupa economistas
Leonardo Costa, economista do ASA, classifica o ritmo de criação de vagas em fevereiro como “consideravelmente mais modesto do que o observado em 2024 e no início de 2025”. Ele destaca que, embora o mercado permaneça aquecido e com saldo positivo em todos os setores, há uma clara desaceleração nos números interanuais. Costa prevê que 2026 poderá apresentar uma desaceleração ainda mais acentuada no mercado de trabalho.
Nesta mesma linha, André Valério, economista sênior do Inter, também observa uma tendência de desaceleração. “O saldo acumulado em 12 meses continua em queda, saindo de 1,2 milhão em janeiro para 1,05 milhão em fevereiro”, aponta. Ele ressalta que o bimestre de 2026 apresenta o menor ritmo de geração de emprego para o período desde 2023, reforçando a percepção de moderação.
Serviços lideram criação de vagas, mas com salários mais baixos
O setor de serviços foi o principal motor da geração de empregos em fevereiro, respondendo por 177,9 mil novas vagas. A área de educação, impulsionada pelo início do ano letivo, contribuiu com 49 mil postos, enquanto o bloco de informação, comunicação, atividades financeiras, imobiliárias e administrativas adicionou 48,1 mil. Construção civil e indústria apresentaram contribuições semelhantes, com cerca de 31,1 mil e 32 mil vagas, respectivamente. O comércio, por sua vez, registrou um desempenho mais modesto, com 6,1 mil novas vagas.
Um ponto de atenção destacado por Costa é o recuo no salário médio de admissão. Em fevereiro, o valor foi de R$ 2.347, representando uma queda de 2,3% em relação a janeiro. Na comparação anual com fevereiro de 2025, houve um aumento de 2,75%, mas a trajetória recente sugere uma pressão para baixo nos salários de entrada.
Vagas de até 1,5 salário mínimo predominam, com saldos negativos em faixas mais altas
Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, reforça a preocupação com a remuneração das novas vagas. Ela observa que a maioria das oportunidades abertas oferece remuneração de até 1,5 salário mínimo. Em contrapartida, as faixas salariais mais elevadas continuam a registrar saldos negativos na geração de empregos. Isso sinaliza que o bom desempenho do emprego formal não tem sido acompanhado por uma aceleração significativa da massa salarial na margem.
A análise da 4intelligence indica uma leve queda na taxa de rotatividade, de 52,4% para 52,2% no acumulado de 12 meses. O tempo médio de emprego dos desligados também diminuiu, de 19,2 meses em fevereiro de 2025 para 18,6 meses em fevereiro deste ano, o que, segundo a empresa, evidencia um mercado de trabalho aquecido. A 4intelligence também aponta que muitos trabalhadores se desligam para buscar novas oportunidades com melhores condições, indicando a oferta de mais vagas no mercado.
Projeções apontam para 1,2 milhão de novas vagas em 2026
Para André Valério, a taxa de desocupação ao final de 2026 deve ficar em torno de 5,5%. A 4intelligence projeta a criação líquida de 1,2 milhão de vagas formais para o ano, o que está em linha com a trajetória de desaceleração lenta da variação interanual observada nos dados recentes.