Construção Civil em 2026: Impulso Inicial e Sinais de Alerta com Alta de Custos e Juros Elevados
A construção civil iniciou 2026 demonstrando vigor na geração de empregos, no crédito imobiliário e no ritmo das obras. No entanto, o aumento de custos, os juros elevados e os impactos da crise geopolítica no Oriente Médio já começam a impactar negativamente o ambiente do setor.
O resultado é um cenário de expansão mais moderada e cercado de incertezas, como avaliou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em coletiva de imprensa. Diante da piora do cenário macroeconômico, a entidade revisou para baixo sua expectativa de crescimento para o setor em 2026, de 2% para 1,2%.
Segundo a economista da CBIC, Ieda Vasconcelos, o setor ainda mantém bases resilientes, impulsionado principalmente pelo mercado imobiliário, pelas obras de infraestrutura e pela forte geração de empregos. Contudo, os custos começam a subir em um ritmo preocupante, ameaçando margens, contratos públicos e novos empreendimentos, conforme divulgado pela entidade.
Petróleo e Conflitos Geopolíticos: A Nova Pressão sobre os Custos
O principal sinal de alerta vem do custo dos materiais. A alta do petróleo, impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre o frete global e a cadeia industrial, já se faz sentir nos indicadores da construção civil. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela FGV, aumentou 5,84% nos últimos 12 meses até março de 2026, superando a inflação oficial do país (IPCA), que ficou em +4,14%. O custo da mão de obra, por sua vez, subiu 8,82% no mesmo período.
O INCC-M, que mede a evolução dos custos de mercado, registrou um aumento de 1,4% somente em abril, a maior elevação desde junho de 2022. O indicador de preços médios dos insumos da construção atingiu 68,4 pontos no primeiro trimestre, o maior nível desde 2022. “A variação já preocupa e acontece diante desse cenário caracterizado pelos conflitos no Oriente Médio e pelo incremento no preço do petróleo”, afirmou Ieda Vasconcelos, economista-chefe da CBIC.
Ela explicou que o impacto vai além do transporte. “O custo do frete ajuda a explicar o aumento, mas não é só isso. Toda a cadeia produtiva é afetada. Materiais derivados de petróleo, como PVC, conexões e tintas, têm sensibilidade maior à elevação do barril”, disse. Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, confirmou que a pressão de custos já se espalhou por diversos insumos industriais e pela logística, com impactos previstos para os próximos meses.
Juros Elevados: O Principal Obstáculo para Novos Negócios
Além da alta dos materiais, as taxas de juros elevadas voltaram a ser apontadas como o principal obstáculo para os negócios no setor. A expectativa inicial de uma queda mais intensa da Selic ao longo de 2026 foi reduzida pelas pressões inflacionárias. A projeção atual é que a taxa encerre o ano em torno de 13%, um patamar considerado ainda muito alto para uma atividade que demanda intensamente crédito e financiamento de longo prazo.
“A taxa de juros elevada voltou a ser o principal problema do setor”, afirmou o presidente da CBIC, Renato Correia. Ele reforçou que a construção civil depende de ciclos longos de investimento e, por isso, sofre de maneira mais intensa em ambientes de juros altos. “É um setor que investe muitos recursos durante muito tempo. Por isso, uma taxa de juros alta penaliza muito”, declarou.
Emprego em Alta, Mas Rentabilidade em Risco
Apesar do cenário mais desafiador, o mercado de trabalho na construção civil segue aquecido. O setor criou mais de 120 mil empregos formais no primeiro trimestre, um aumento de quase 19% em relação ao mesmo período do ano passado. Este foi o melhor resultado para um primeiro trimestre desde o início da nova série histórica do Caged em 2020. A construção civil respondeu por praticamente um em cada cinco empregos formais criados no país no período.
O número de trabalhadores com carteira assinada ultrapassou 3 milhões, impulsionado pela construção de edifícios e obras de infraestrutura. O salário médio de admissão em março na construção civil se tornou o maior entre todos os setores da economia brasileira. Contudo, a rentabilidade das empresas passou a ser uma preocupação. Renato Correia alertou que contratos públicos e projetos habitacionais populares podem sofrer desequilíbrios com a escalada dos custos.
Obras do Minha Casa Minha Vida Faixa 1, com margens estreitas e preços fixos, podem enfrentar dificuldades de contratação e até risco de paralisação. “Pode ocorrer até paralisação das obras dependendo do impacto”, afirmou. A preocupação também atinge obras rodoviárias e contratos públicos corrigidos anualmente, especialmente com a disparada de itens ligados ao petróleo, como o asfalto.
Confiança em Baixa e Cenário de Equilíbrio Delicado
A deterioração do ambiente econômico já se reflete na confiança dos empresários. O Índice de Confiança da Construção caiu em abril para 46,4 pontos, o menor nível do ano e abaixo da linha de 50 pontos, que separa confiança de pessimismo. O recuo reflete a piora na avaliação da economia, custos mais altos, crédito caro e incertezas sobre novos empreendimentos.
A leitura da CBIC é que a construção continuará crescendo em 2026, mas em ritmo mais lento e sob pressão crescente. O setor se apoia em emprego forte, expansão do crédito habitacional e investimentos em infraestrutura. Por outro lado, enfrenta juros elevados, inflação de custos e incertezas externas. A combinação desses fatores torna 2026 um ano de delicado equilíbrio para as construtoras, que buscam manter obras, preservar margens e continuar investindo em meio a um cenário cada vez mais caro e imprevisível.
Outra preocupação é o uso do FGTS para pagamento de dívidas, como proposto pelo governo. Segundo Renato Correia, o fundo é a base do financiamento para novas moradias e não pode ser usado indiscriminadamente. “Quando se trata do FGTS é preciso ver o interesse social envolvido para suprir o déficit habitacional no país. Por isso nossa defesa intransigente do uso do recurso para habitação, o que é garantido em constituição”, defende o presidente da entidade.