Copom deve sinalizar maior cautela com inflação e Brent, aponta XP
O Comitê de Política Monetária (Copom) deve apresentar um comunicado mais restritivo em sua próxima reunião, reforçando a cautela diante dos riscos inflacionários, segundo avaliação da XP. A autoridade monetária deverá dar maior peso aos dados externos, mas sem indicar, no curto prazo, uma interrupção no ciclo de ajustes da taxa básica de juros.
A expectativa geral do mercado, que aponta para um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, elevando-a para 14,50%, pode ser influenciada por um tom mais firme no comunicado. O documento deve trazer leves alterações para sinalizar essa mudança de postura e a crescente atenção aos riscos de inflação, conforme indicam análises.
No entanto, economistas da XP alertam que o aumento do risco inflacionário eleva a probabilidade de cenários alternativos. Entre eles, o Copom poderia manter o ritmo modesto de cortes de 0,25 ponto percentual ou até mesmo interromper o ciclo de flexibilização monetária antes do previsto, um cenário diferente do projetado no início do ano, quando se esperavam cortes de 0,50 ponto percentual.
Alta do petróleo e pressões internas impulsionam inflação
Desde a última reunião do Copom em março, o cenário de dados e notícias deteriorou as perspectivas inflacionárias, na visão da equipe macroeconômica da XP. Os riscos altistas, que antes eram menos prováveis, ganharam força, impulsionados principalmente pela **elevação dos preços do petróleo**. Essa alta pressiona diretamente a inflação no curto prazo.
As cotações do barril de petróleo, apesar da volatilidade recente, permanecem em patamares elevados, operando acima de US$ 100. Mesmo com a notícia de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, as tensões no Oriente Médio não foram suficientes para aliviar significativamente os preços da commodity.
No ambiente doméstico, as pressões inflacionárias também se manifestam. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e suas medidas de núcleo registraram alta, e a atividade econômica interna voltou a ganhar força. O núcleo do IPCA, em termos anualizados e dessazonalizados, saltou de 3,3% em janeiro para 4,7% em março, tendência reforçada pelo choque de energia.
Estímulos governamentais e câmbio como “amortecedor”
Adicionalmente, a economia brasileira experimenta um choque de demanda decorrente de medidas de estímulo anunciadas pelo governo. A XP estima que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha crescido acima de 4% no primeiro trimestre de 2026, com expectativa de continuidade em território positivo nos trimestres seguintes. Esse cenário de aquecimento econômico contribui para as pressões inflacionárias.
Por outro lado, a taxa de câmbio tem atuado como um importante “amortecedor” para os preços. O real acumulou uma apreciação de cerca de 9% frente ao dólar no ano. Esse movimento é reflexo da posição relativamente favorável do Brasil diante do choque do petróleo, com **exportações e receitas fiscais em alta**.
Essa valorização do real deve reduzir o IPCA de 2026 em aproximadamente 0,7 ponto percentual, além de ajudar a conter a inércia inflacionária para 2027. Sem esse “colchão” cambial, o cenário inflacionário seria ainda mais desafiador.
Projeções de inflação em alta e próximos passos da Selic
Diante desse cenário, a XP prevê um aumento nas projeções de inflação do modelo do Banco Central. A previsão para o IPCA de 2026 deve subir de 3,9% para 4,5%, principalmente pela incorporação de surpresas na inflação corrente. Para o quarto trimestre de 2027, a taxa projetada deve passar de 3,3% para 3,4%.
Com isso, o Comitê deverá explicitar que “o balanço de riscos em torno das projeções de inflação está assimétrico para cima”. Essa sinalização reforça a necessidade de cautela por parte da política monetária para ancorar as expectativas inflacionárias.
A XP mantém sua projeção de que a taxa Selic feche 2026 em 13,50%. Após o esperado corte de 0,25 ponto percentual nesta semana, os analistas preveem mais duas reduções de 0,50 ponto percentual em junho e agosto. Esse cenário base, contudo, depende da **diminuição das tensões geopolíticas** e do retorno dos preços do petróleo para a faixa de US$ 80 a US$ 90 por barril.
A expectativa é de uma pausa na redução dos juros durante o período eleitoral para avaliação, com a retomada da flexibilização monetária condicionada a uma maior clareza sobre a condução da política fiscal a partir de 2027.