Mercado de Crédito Privado nos EUA Enfrenta Turbulência, Mas Risco Sistêmico é Descartado
O mercado americano de crédito privado tem sido palco de tensões recentes, com aumento nos pedidos de resgate e alguns defaults relevantes. Essa conjuntura gerou preocupações sobre um possível contágio e uma crise estrutural, à semelhança do que ocorreu com o mercado subprime em 2008. No entanto, especialistas apontam para um cenário mais pontual, sem ameaças de um colapso em larga escala.
Renato Jerusalmi, sócio-fundador da Riza Asset, compartilhou sua visão sobre a dinâmica atual do mercado global de crédito privado. Ele detalhou os eventos que desencadearam o estresse e ofereceu uma análise fundamentada sobre a resiliência do setor, diferenciando os desafios atuais das crises passadas.
As informações foram apresentadas em um contexto de discussão sobre o mercado, onde a perspectiva de especialistas é crucial para a compreensão dos investidores. Jerusalmi explicou que, apesar da volatilidade, os mecanismos de proteção e o perfil dos investidores institucionais atuam como amortecedores importantes, evitando um pânico generalizado. Conforme informações divulgadas no Outliers InfoMoney, edição 186, o cenário atual é de atenção, mas não de alerta vermelho.
O Estresse Iniciado em Setembro de 2025
O período de estresse no mercado de private credit ganhou força a partir de setembro do ano passado. Dois eventos de inadimplência significativos chamaram a atenção do mercado. O primeiro foi o da First Brands Group, uma grande fabricante de autopeças nos Estados Unidos, que possuía um passivo de US$ 11 bilhões. Pouco depois, ocorreu o default da Tricolor Auto Group, empresa focada em empréstimos subprime para veículos, com um passivo de US$ 1 bilhão.
Esses defaults geraram uma onda de resgates nos chamados BDCs (Business Development Companies). Estes são veículos regulados pela SEC americana que concedem empréstimos diretos a empresas de médio porte. O volume de resgates, que antes girava em torno de 1,5% ao trimestre, saltou para 5% no quarto trimestre de 2025 e atingiu 8,5% no primeiro trimestre de 2026. Essa escalada de saídas de recursos atraiu cobertura midiática negativa, intensificando o temor no nicho.
Para mitigar a saída de capital, alguns gestores optaram por acionar os “gates”. Estes são mecanismos de defesa previstos em fundos de formato aberto que permitem limitar o volume de resgates em um determinado período. Jerusalmi explicou que, em situações de alta demanda por resgates, o gestor pode limitar a saída a uma porcentagem menor, deixando o restante para o trimestre seguinte. Ele ressalta que essa prática é positiva para a indústria, pois evita vendas forçadas de ativos ilíquidos.
Análise de Mercado: Pontualidade do Estresse
Para avaliar a temperatura do mercado de crédito privado, um setor naturalmente opaco, Jerusalmi monitora o índice de BDCs da Bloomberg. Este índice, que agrega fundos negociados em bolsa, permite acompanhar a relação entre preço e patrimônio líquido. Antes dos defaults de setembro, os BDCs eram negociados a uma vez o patrimônio. Em setembro, esse índice caiu para 0,9, indicando uma expectativa de perda de 10% do patrimônio. No primeiro trimestre de 2026, o índice chegou a atingir a mínima histórica de 0,8, mas em abril, recuperou-se para 0,88.
Os fundamentos do mercado sustentam a visão de que o estresse é pontual. O índice de non-accruals (indicador de inadimplência, quando empresas deixam de pagar juros) permanece estável, próximo a 1,3%. Houve uma leve piora no indicador de payment in kind (PIK), que é a capitalização de juros em vez do pagamento em dinheiro, subindo de 6,5% para 7%, mas essa variação é considerada de baixa magnitude.
Outro fator que contribui para a contenção do contágio é o perfil dos cotistas. Cerca de 85% dos investidores são institucionais, como fundos de pensão, endowments e seguradoras. Apenas 15% são investidores de varejo, que tendem a ser mais avessos ao risco. Os institucionais, por sua vez, possuem maior compreensão do risco e podem até mesmo aumentar suas posições em momentos de baixa, comprando ativos desvalorizados.
O Impacto da Inteligência Artificial no Setor de Software
Um vetor de pressão menos óbvio sobre o private debt americano, segundo Jerusalmi, vem da inteligência artificial (IA). Empresas de private equity frequentemente adquirem companhias de software, e o crédito privado tem sido um grande fornecedor de capital para essas transações. A concentração em softwares pode chegar a 25% em média na indústria, com alguns fundos investindo até 50% ou 60% nesse setor.
O avanço da IA está disruptando a indústria de softwares. Empresas que adquiriram outras a múltiplos elevados, baseadas na expectativa de perpetuidade de lucros, agora enfrentam um cenário de maior risco. Com a IA ameaçando modelos de negócio tradicionais, a taxa de desconto sobre os fluxos de caixa futuros precisa aumentar significativamente, elevando o risco percebido.
O impacto já é visível. O índice de software do S&P caiu 35% de outubro para cá. Se a avaliação de uma empresa cai pela metade, o “cushion” (margem de segurança) de 5 vezes receita pode reduzir para 1 vez receita, aumentando drasticamente o risco de crédito. Um exemplo prático é a possibilidade de empresas desenvolverem seus próprios CRMs utilizando ferramentas de IA, diminuindo a dependência de assinaturas de fornecedores como a Salesforce, o que poderia elevar o índice de defaults nesse setor.
Diferenças Cruciais com a Crise de 2008
Jerusalmi afasta o risco de uma crise sistêmica semelhante à do subprime de 2008 com três argumentos principais. O primeiro é a qualidade dos ativos. No mercado de crédito privado atual, os empréstimos são, em sua maioria, para empresas de médio porte, com garantias reais e múltiplos de dívida mais baixos em comparação com os títulos lastreados em hipotecas subprime daquela época.
O segundo motivo é o nível de alavancagem. A indústria de crédito privado nos EUA opera com uma alavancagem de uma vez a relação dívida/patrimônio, enquanto o limite regulatório é de duas vezes. A alavancagem no subprime, via securitização, era consideravelmente mais alta. Essa menor alavancagem torna o setor menos vulnerável a choques.
O terceiro argumento contra uma crise estrutural é o perfil do passivo do private credit. A maior parte dos investidores são institucionais, mais sofisticados e menos propensos ao pânico em comparação com os investidores de varejo que participaram do mercado subprime. Essa base de investidores mais resiliente contribui para a estabilidade do mercado.
Embora Jerusalmi descarte uma crise sistêmica, ele admite a possibilidade de um abalo de menor magnitude. Um eventual aumento no índice de inadimplência para 10% poderia representar cerca de US$ 200 bilhões, ou 0,5% do PIB americano. Tal cenário poderia desencadear uma crise de crédito e uma pequena recessão, mas não uma crise sistêmica generalizada.