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Crise do crédito nos EUA volta a assombrar mercados com Blue Owl, venda de US$ 1,4 bilhão, alerta de Jamie Dimon e risco de liquidez para investidores

Pressão sobre o crédito privado nos Estados Unidos aumenta depois que a Blue Owl mudou regras de resgate, gerou vendas bilionárias e reacendeu alertas sobre liquidez e exposição a tecnologia

A instabilidade voltou a rondar o mercado de crédito dos Estados Unidos após movimentos recentes de uma grande gestora, com impacto direto em cotas, liquidez e confiança entre investidores.

O caso reacende discussões sobre como fundos que oferecem alguma liquidez lidam com ativos menos negociáveis e se sinais isolados podem se transformar em problemas sistêmicos.

O episódio também elevou o receio sobre setores expostos à inteligência artificial, aumentando a atenção para riscos setoriais e alocações mais concentradas, conforme informação divulgada pelo InfoMoney.

O que ocorreu na Blue Owl

A gestora Blue Owl anunciou a venda de US$ 1,4 bilhão em empréstimos de três fundos, parte dos quais será usada para devolver 30% do patrimônio aos investidores do fundo OBDC II, e, ao mesmo tempo, suspendeu a oferta de resgates trimestrais limitados a 5% do patrimônio.

Em nota, a empresa afirmou que, “em vez de retomar uma oferta de recompra de 5% por trimestre, estamos devolvendo seis vezes mais capital e retornando-o a todos os acionistas nos próximos 45 dias“. O mercado reagiu mal e as ações da Blue Owl acumulam queda de cerca de 60% em 13 meses.

Por que isso preocupa

O ponto central é a diferença entre a promessa de liquidez e a natureza dos ativos. Muitos fundos oferecem algum nível de retirada, mas investem em empréstimos e ativos que não são fáceis de vender rapidamente.

Quando muitos investidores tentam sair ao mesmo tempo, o gestor pode ser forçado a vender ativos a preços desfavoráveis ou a limitar resgates, como ocorreu agora. A Morningstar classificou o caso como uma “lição dura” para quem investe em fundos semilíquidos, porque o investidor passa a depender do ritmo de venda dos ativos.

IA e concentração setorial elevam o risco

Além das questões de liquidez, a inteligência artificial virou um fator de estresse. Pesquisa do Bank of America mostrou que o medo de uma “bolha de IA” passou a ser a principal preocupação de investidores em crédito, com 23% apontando esse risco, contra 9% em dezembro.

Parte do problema é a exposição de fundos a empresas de software, setor que, segundo a JGP, representa cerca de 20% do portfólio agregado das estruturas de BDC, como a Blue Owl. Se a IA alterar rapidamente a dinâmica competitiva, algumas dessas empresas podem sofrer, afetando portfólios concentrados.

Paralelos com 2007 e avaliação dos números

Alguns gestores traçam paralelos com o período pré-2008. Orlando Gemes, da Fourier Asset Management, afirmou que “os sinais de alerta que estamos vendo no crédito privado hoje são surpreendentemente familiares aos de 2007“. Mohamed El-Erian perguntou se o momento poderia ser um “canário na mina de carvão“, um alerta inicial de algo maior.

Por outro lado, indicadores recentes não mostram aumento expressivo de calotes. O índice Cliffwater Direct Lending apontou retorno de 9,33% em 2025, com perdas realizadas em 0,70% no ano, abaixo da média histórica, indicando que empréstimos problemáticos seguem em patamar controlado.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, declarou, “Estamos preocupados“, ressaltando que o governo acompanha o caso e que investidores individuais não podem ser os mais prejudicados.

O que isso significa para investidores brasileiros

Analistas brasileiros já recomendavam cautela na alocação em renda fixa americana ao início do ano, e o caso da Blue Owl reforçou essas indicações. Ainda assim, gestores como Bernardo Queima, da Gama Investimentos, mantêm a tese estrutural de alocação em renda fixa dos EUA, por oferecer diversificação e retorno ajustado ao risco.

A JGP destacou diferenças importantes entre os mercados, como a menor presença de tranches subordinadas e alavancadas entre investidores institucionais no Brasil, e alertou para não replicar aqui estruturas mais arriscadas de passivo apenas por busca de crescimento.

Em resumo, o episódio da Blue Owl reacendeu o debate sobre liquidez em fundos semilíquidos, a concentração setorial e os riscos trazidos pela IA, ao mesmo tempo em que dados de desempenho ainda não apontam uma crise generalizada, transformando o momento em alerta, não em confirmação de colapso.