A Era do G0 altera a estratégia de investimentos e coloca a geopolítica, os semicondutores e a credibilidade dos EUA no centro das decisões globais
A ordem mundial estaria saindo de um regime unipolar e entrando em uma fase que especialistas chamam de Era do G0, marcada pela falta de governança global e pela prioridade aos interesses domésticos.
Isso muda como governos, empresas e investidores avaliam riscos e alocam capitais, com impactos distintos entre regiões e setores.
As observações foram feitas por Christopher Garman, diretor para as Américas da Eurasia Group, em participação no Outliers InfoMoney, conforme informação divulgada pela Eurasia Group durante o programa.
O que significa a Era do G0
Para Garman, a nova fase não é uma volta ao G2 ou ao G7, é uma configuração onde “Não é G2, não é G7. Países olham mais para o seu próprio umbigo“, o que traduz um enfraquecimento das alianças tradicionais e aumento do que ele chama de egoísmo estratégico.
Nesse cenário, estruturas multilaterais perdem força, aumentando incertezas e redistribuindo riscos de forma desigual entre continentes e setores da economia global.
Disputa EUA-China e o papel dos chips de Taiwan
Garman aponta a competição entre Estados Unidos e China como o motor central da Era do G0. “A disputa é tecnológica, militar e financeira. Mas as duas economias estão tão interligadas que se atacam e se seguram ao mesmo tempo“, disse o executivo.
Essa interdependência ambígua leva ambos os países a medidas defensivas, enquanto dependem de fluxos comerciais e tecnológicos bilaterais. A busca por autonomia nas cadeias elevou os semicondutores a ativo geopolítico de primeira grandeza.
O executivo chamou atenção para a dependência global dos chips produzidos em Taiwan, e ressaltou que “Embora a probabilidade de uma invasão chinesa em 2026 seja estimada em apenas 5%, o especialista alerta que essa chance deve aumentar nos próximos cinco anos“, lembrando que o risco já está precificado pelo mercado, mas tende a ganhar mais relevância.
Impacto direto em empresas e investidores
A geopolítica, segundo Garman, deixou de ser um fator periférico e se tornou comparável a variáveis macroeconômicas, como inflação e juros, na hora de influenciar mercados.
CEOs de multinacionais já listam fatores geopolíticos entre suas três maiores preocupações, o que demonstra que o risco político é hoje um componente central nas decisões estratégicas das empresas.
Para investidores, qualquer escalada, seja comercial, tecnológica ou militar, tem efeito imediato nos preços de ativos, moedas, commodities e nas expectativas de crescimento, exigindo novas abordagens de proteção e diversificação.
Riscos regionais, credibilidade dos EUA e a estratégia chinesa
Além da Ásia, Garman destacou a ação disruptiva da Rússia e transformações na Europa e na América do Norte. A perda de confiança pública em instituições alimenta lideranças focadas em agendas domésticas, reduzindo cooperação internacional.
Sobre os Estados Unidos, ele afirmou que existe “uma quebra da confiança dramática na relação transatlântica. O ruído político tende a enfraquecer o dólar ao longo do ano“, e avaliou que um eventual governo Trump não seria moderado, “Não é um Trump que vai ficar moderado. Ele vai dobrar a aposta nas suas investidas externas“, citando possíveis pressões sobre a Venezuela e interesses estratégicos na Groenlândia.
Quanto à China, Garman disse que o objetivo não é substituir os EUA como potência global, mas “o grande driver na China é aumentar a autonomia nas cadeias produtivas, reduzir vulnerabilidades e reforçar presença internacional“.
Ele prevê um período de detente nas relações bilaterais pelos próximos dois anos, mas alerta que nos cinco anos seguintes os EUA devem intensificar restrições ao capital chinês e ao acesso de empresas chinesas a setores estratégicos.
O que investidores devem observar
Na Era do G0, os pontos-chave para quem aloca recursos são a exposição a cadeias de suprimentos críticas, a sensibilidade a choques geopolíticos e a capacidade das empresas de adaptar suas estratégias globais.
Setores como semicondutores, defesa, tecnologias críticas e energia merecem atenção, assim como mercados cujas economias são mais vulneráveis à fragmentação comercial e à erosão institucional.
Como concluiu Garman, “A década passada já mostrou sinais claros desse novo padrão“, e os próximos anos devem aprofundar a centralidade da geopolítica na tomada de decisões financeiras e estratégicas.