Governo Federal lança Desenrola 2.0 com uso de FGTS para dívidas, provocando apreensão no setor imobiliário.
O ano de 2026 iniciou com expectativas positivas para o setor imobiliário, impulsionadas pela perspectiva de queda nos juros. No entanto, a recente autorização para utilização de até 20% do saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas, como parte do programa Desenrola 2.0, adicionou uma camada de incerteza.
O programa, focado em renegociar dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, visa atender famílias de baixa e média renda. Essa medida, contudo, gera preocupação, pois o FGTS é uma das principais fontes de financiamento para o setor habitacional, especialmente para programas como o Minha Casa, Minha Vida.
A Associação Brasileira de Incorporadoras (ABRAINC) e a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) já manifestaram receios sobre os impactos. Segundo a ABRAINC, a retirada de recursos do FGTS pode comprometer a geração de empregos e o acesso à moradia para milhares de famílias. As informações foram divulgadas com base em simulações da entidade e dados de mercado.
ABRAINC prevê perdas significativas com a liberação do FGTS
A ABRAINC estima que a movimentação de recursos do FGTS para o Desenrola 2.0 possa variar entre R$ 4,5 bilhões e R$ 8,2 bilhões. Essa estimativa, segundo a entidade, pode resultar na não criação de 59 mil a 107 mil postos de trabalho no sistema habitacional. Além disso, entre 25 mil e 46 mil famílias poderiam deixar de adquirir suas casas.
A entidade também alerta para a potencial redução na arrecadação de impostos, que poderia variar entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões. A ABRAINC ressalta o alto efeito multiplicador do setor de habitação, onde cada R$ 1 bilhão investido gera 13 mil empregos e R$ 300 milhões em impostos. A preocupação é que a substituição de um ativo de longo prazo, como o FGTS, por dívidas de curto prazo seja um paliativo ineficaz.
CBIC aponta riscos para o Minha Casa, Minha Vida e cenário de incertezas
A CBIC também demonstra preocupação, especialmente com a execução do programa Minha Casa, Minha Vida. A entidade aponta que novas liberações de recursos do FGTS aumentam o cenário de incertezas já existente, que inclui juros altos, aumento do custo das obras, impacto da reforma tributária e discussões sobre a redução da jornada de trabalho.
O setor imobiliário já enfrentava desafios, como a dependência do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e a necessidade de diversificar suas fontes de financiamento. Embora notícias recentes, como o novo modelo de crédito imobiliário para a classe média e o aumento dos limites do Minha Casa, Minha Vida, tivessem injetado otimismo, a medida do Desenrola 2.0 lança uma sombra sobre essas perspectivas.
Mercado reage com cautela e queda nas ações de empresas do setor
A reação do mercado financeiro à notícia foi imediata. Diversas empresas do setor imobiliário listadas em bolsa registraram quedas em suas ações, como MRV, Cury, Direcional e Tenda. A Cyrela também apresentou desvalorização. O Índice Imobiliário da Bolsa já acumula uma queda significativa desde abril.
Empresas como MRV, Cury, Direcional e Tenda se recusaram a comentar o assunto, enquanto Plano & Plano e Cyrela não responderam aos contatos até o momento da publicação. Essa falta de pronunciamento reforça o clima de apreensão e incerteza que paira sobre o setor.
FGTS é pilar fundamental para o financiamento imobiliário
O FGTS desempenha um papel crucial no financiamento imobiliário, sendo o segundo maior financiador do setor. Em 2025, respondeu por cerca de 43% dos novos financiamentos, totalizando R$ 138 bilhões. Do orçamento total do fundo, uma parcela significativa, aproximadamente 90% em 2026, está destinada à habitação, incluindo subsídios que viabilizam a compra para famílias de menor renda.
A ABRAINC, embora mantenha um otimismo fundamentado na queda dos juros, considera a inclusão do FGTS no Desenrola 2.0 uma surpresa negativa. A entidade argumenta que o programa desidrata um fundo que é pilar do crédito imobiliário, especialmente para famílias de menor renda, sem, contudo, resolver o problema do endividamento de forma estrutural.

