O agronegócio brasileiro vive um momento de apreensão com a escalada do conflito no Oriente Médio, que já se reflete diretamente no bolso do produtor rural. A principal preocupação, neste instante, não são as exportações de soja ou milho para o Irã, mas sim o custo e a disponibilidade do diesel, combustível essencial para as operações no campo.
A alta do preço do diesel no mercado interno é o reflexo mais imediato e temido pela cadeia produtiva agrícola do Brasil. O país, que importa cerca de 30% de suas necessidades de diesel, sente o impacto da disparada do mercado de petróleo, que atingiu máximas não vistas desde meados de 2022. Representantes de importantes associações do setor alertam para um cenário desafiador.
Relatos de produtores, especialmente no Rio Grande do Sul, indicam dificuldades na entrega do combustível, com agentes limitando a oferta enquanto os custos aumentam. A Petrobras, por sua vez, mantém seus preços, mesmo com o barril de petróleo em alta, o que gera incerteza e alarde entre os agricultores que dependem do insumo.
Este cenário coincide com um dos períodos de maior demanda por diesel no agronegócio brasileiro. A necessidade é urgente para escoar a safra recorde de soja, finalizar a colheita da oleaginosa que ainda está nos campos e, crucialmente, para concluir o plantio da segunda safra, responsável por grande parte da produção de milho do país. Conforme informação divulgada pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), o principal problema no curto prazo é o valor do diesel, com o petróleo saindo de US$ 80 para o patamar de US$ 100 o barril, gerando apreensão no campo.
Colheita e Plantio Não Podem Esperar: A Urgência do Diesel
As atividades de colheita e plantio são ditadas pelo tempo e pela natureza, não podendo ser adiadas. Bruno Lucchi, diretor-técnico da CNA, ressalta que o produtor rural não tem escolha senão entrar na lavoura, pois “o tempo não é o do produtor, é o tempo da natureza”. A falta ou o alto custo do diesel impactam diretamente o cronograma das operações, podendo comprometer janelas climáticas importantes para o plantio da segunda safra.
Fertilizantes e Exportações: Margens de Manobra Existentes
Em contrapartida, outros insumos e mercados apresentam uma margem de manobra maior. A importação de fertilizantes nitrogenados, embora também afetada pelos riscos no transporte de produtos como o petróleo, pode ser gerenciável, com produtores podendo adiar a decisão de compra, já que as necessidades para a safra atual estão cobertas. Da mesma forma, as maiores exportações de milho para o Irã, principal mercado do cereal, ocorrem no segundo semestre, dando alguma flexibilidade.
Aumento de Preços e Investigação de Oportunismo
A alta no preço do diesel na bomba já é uma realidade em diversas regiões. Relatos apontam aumentos de cerca de R$ 1 por litro no Centro-Oeste e Sul do país, representando um avanço de mais de 15% no valor. Diante disso, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que investigará denúncias sobre dificuldades na aquisição e aumentos de preços do combustível para produtores rurais, especialmente no Rio Grande do Sul. A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) orienta os produtores a reportarem casos de aumento de preço ou dificuldades de abastecimento.
Impacto no Custeio e Alerta de Oportunismo
O óleo diesel e lubrificantes representam, em média, cerca de 5% do custeio agrícola. No entanto, essa participação pode ser significativamente pressionada com as recentes altas. Cleiton Gauer, superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), reforça que o ponto principal no curto prazo é o diesel, pois o produtor precisa dele para realizar as operações agora. Há suspeitas de que algumas distribuidoras estejam retendo o produto para vendê-lo a preços mais altos, configurando um possível oportunismo no mercado, segundo declarações da CNA à Reuters.