Guerra e Aversão ao Risco: O Que Explica o Fluxo Massivo de R$ 12 Bilhões para a Bolsa Brasileira em Março?
O cenário internacional tem sido marcado por incertezas, com a guerra no Irã gerando preocupações em todo o globo. No entanto, em um movimento surpreendente, investidores estrangeiros continuam a injetar capital na bolsa brasileira. Somente em março, R$ 12 bilhões foram direcionados para a B3, elevando o acumulado no ano para impressionantes R$ 53,8 bilhões, segundo dados recentes da B3.
Este volume representa um salto significativo em comparação com o mesmo período do ano anterior, quando as entradas somaram R$ 3,5 bilhões em março e R$ 11 bilhões no primeiro trimestre. O triplo de recursos entrando no mercado brasileiro, mesmo diante da turbulência global, levanta questões sobre os motivos por trás dessa confiança.
O Ibovespa, apesar de fechar março em leve queda de 0,7%, acumulou uma alta expressiva de 16,25% no ano. A grande questão agora é se essa tendência de entrada de capital estrangeiro se manterá. Conforme análise de Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos para o Brasil no UBS Global Wealth Management, a explicação para esse interesse começa antes mesmo da guerra, com um reposicionamento global de investimentos.
O Cenário Pós-Guerra e a Força do Dólar: Uma Análise Detalhada
Até fevereiro, já se observava uma tendência de redução de investimentos nos Estados Unidos, impulsionada por políticas de reindustrialização e um dólar enfraquecido. A guerra, contudo, intensificou a aversão ao risco global, testando a resiliência do dólar. Embora a moeda americana tenha se fortalecido, os juros dos títulos do Tesouro dos EUA subiram diante do temor de mais inflação causada pelo petróleo.
“Não estamos discutindo recessão, mas um choque do petróleo, que é inflacionário”, explica Telo. Apesar disso, o mercado ainda não reavaliou completamente o cenário de um dólar potencialmente mais fraco após a superação do momento agudo de crise. Isso mantém o fluxo para mercados emergentes, com o Brasil se destacando.
O executivo aponta que, no mercado futuro, o preço do petróleo para daqui a três meses já é cotado abaixo dos US$ 100 do mercado à vista, indicando uma expectativa de normalização. “Não deve voltar para os US$ 65 de antes da guerra, mas deve ficar abaixo dos US$ 100”, afirma Telo.
Por Que o Brasil se Tornou o Queridinho dos Investidores Estrangeiros?
Desde o início do ano, o Brasil tem se destacado entre os mercados emergentes por diversos fatores. Primeiramente, o país oferece mercados e economias de grande porte, o que atrai gestores que buscam liquidez e volume. Segundo, as ações brasileiras iniciaram o ano com preços significativamente descontados em relação a outros emergentes.
A taxa de juros elevada no Brasil, em 14,75%, mas com perspectiva de corte, também é um atrativo, contrastando com outros países que estudam o aumento de suas taxas básicas. “É outro ponto que ajuda o mercado doméstico”, diz Telo.
Além disso, empresas de commodities, altamente valorizadas globalmente, têm forte representação na Bovespa. Petrobras, com alta superior a 60% no ano, e Vale, com 20%, são exemplos claros. Investidores estrangeiros têm focado em ações de primeira linha, priorizando países descontados e com liquidez. Setores como commodities e bancos se mostram particularmente atraentes.
Oportunidades Após a Tempestade: Perspectivas para a Bolsa Brasileira
Segundo Telo, o UBS considera a bolsa brasileira uma oportunidade, mesmo após a recente alta. A expectativa é de uma retomada na procura por mercados emergentes e um dólar fraco, o que deve manter o fluxo de recursos para o Brasil. O banco recomenda fundos de ações para diversificação e gestão profissional.
“Achamos que a guerra vai continuar por algum tempo, estamos no meio de um episódio de aversão a risco, por isso falamos para o investidor segurar sua posição e mais para frente talvez entrar mais, tanto aqui quanto lá fora”, adverte Telo.
Rodrigo Santoro, head de renda variável da Bradesco Asset, corrobora essa visão, destacando três fatores principais para a entrada de estrangeiros: a tese de diversificação global fora dos EUA, o papel do Brasil em setores como financeiro e commodities, e o benefício da alta do petróleo para o país, que é um grande produtor e exportador.
O risco principal, segundo Santoro, seria a prolongação da guerra e uma recessão global, o que poderia levar a um “flight to quality” para países desenvolvidos, prejudicando o Brasil. Contudo, este não é o cenário base.
Brasil se Destaca em Meio à Volatilidade Global
O Brasil tem se sobressaído em relação a outros emergentes e até mesmo a mercados desenvolvidos. No ano, o mercado brasileiro em dólar acumula alta de 18,5%, enquanto o México sobe 6% e o S&P 500 cai 7%. A estabilidade do real frente ao dólar também contribui positivamente.
Santoro recomenda fundos de ações de dividendos e empresas resilientes. A concentração em grandes empresas (large caps) e setores como commodities e energia tem sido a tônica, mas oportunidades em outros setores podem surgir com a rotação do mercado.
Daniel Gewehr, chefe de Estratégia de Ações para Brasil e América Latina do Itaú BBA, ressalta que o Brasil tem apresentado um desempenho relativo superior. Historicamente, a desvalorização do real frente ao dólar impactava negativamente as bolsas emergentes, mas o Brasil tem se mostrado mais resiliente.
A perspectiva de corte de juros no Brasil, mesmo que moderado, é um fator positivo para o lucro das empresas. A expectativa é de crescimento de dois dígitos para o lucro das empresas brasileiras este ano, com uma revisão para cima das estimativas por analistas.
O mercado brasileiro negocia com um desconto em relação à sua média histórica, enquanto o mercado global opera com prêmio. Essa combinação de valuation atrativo, perspectiva de lucro e fatores de proteção contra cenários extremos tem impulsionado o desempenho do Brasil.
Gewehr observa uma rotação interna no fluxo de estrangeiros, com maior concentração em ações de petróleo e geração de energia, enquanto setores como bancos, consumo e imobiliário perderam protagonismo. No entanto, o Brasil continua sendo uma indicação acima da média na América Latina, com um índice preço/lucro atrativo.
Os temas preferidos de Gewehr incluem ações pagadoras de dividendos, infraestrutura e o setor elétrico. Empresas como Auren, Copel e Eneva são citadas. Setores como shopping centers, saneamento básico, financeiro e construção civil também apresentam oportunidades interessantes.