Instabilidade no Oriente Médio: o risco real de fome mundial e alta nos preços dos alimentos
A escalada de tensões no Oriente Médio acende um alerta global sobre a segurança alimentar. A região, crucial para o fornecimento de fertilizantes, pode se tornar o epicentro de uma crise que afetará o acesso a alimentos em todo o planeta.
O fechamento do Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte de commodities, é o principal gatilho para essa preocupação. A impossibilidade de exportar fertilizantes e matérias-primas essenciais pode levar a uma escassez sem precedentes.
Essa interrupção, conforme aponta o CRU Group, uma empresa de pesquisa e dados especializada em commodities, tem o potencial de desestabilizar a cadeia produtiva de alimentos, impactando diretamente países vulneráveis e aumentando o custo de vida globalmente. A dependência mundial dessa região é o ponto chave da crise iminente.
Fertilizantes: o elo fraco na cadeia alimentar global
O Oriente Médio é um fornecedor fundamental de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, essenciais para a produção de cerca de metade dos alimentos consumidos no mundo. A energia abundante na região impulsiona a fabricação desses insumos, que são, em essência, gás natural transformado em nutrientes para as plantações.
Embora as fábricas de fertilizantes na região ainda estejam operando, a logística de distribuição foi severamente comprometida pelo fechamento efetivo do Estreito de Ormuz. Essa via marítima é a única ligação entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, tornando o transporte de produtos impossível.
A interrupção do tráfego marítimo no estreito é um dos principais motores do aumento nos preços do petróleo e gás. Se a situação persistir, os custos de fertilizantes e seus componentes químicos dispararão, forçando agricultores a reduzir o uso, o que, por sua vez, diminuirá a oferta global de alimentos e tornará a alimentação menos acessível.
Lições da Ucrânia e o impacto ainda maior no Oriente Médio
A guerra na Ucrânia já havia demonstrado a fragilidade da interconexão global. Em 2022, o conflito entre Rússia e Ucrânia, ambos grandes produtores de trigo e fertilizantes, gerou escassez e aumentou os preços dos alimentos em diversas partes do mundo, da África à Ásia.
Agora, a instabilidade no Oriente Médio apresenta um risco potencialmente maior. Sarah Marlow, editora global de fertilizantes da Argus Media, destaca que os volumes afetados podem ser superiores aos do conflito na Ucrânia, devido ao envolvimento de múltiplos países produtores na região.
Cinco dos maiores exportadores de fertilizantes, incluindo Irã, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, dependem do Estreito de Ormuz para suas exportações. Juntos, eles respondem por mais de um terço do comércio mundial de ureia e quase um quarto de amônia, além de uma parcela significativa de fertilizantes fosfatados.
Enxofre: a commodity invisível em risco
Outro componente vital sob ameaça é o enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás, essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados e metais. Quase metade do enxofre mundial está localizado no lado errado do Estreito de Ormuz, efetivamente retido.
A China, um dos maiores consumidores de enxofre para fertilizantes, e a Indonésia, que o utiliza tanto para fertilizantes quanto para a produção de níquel, serão fortemente impactadas. A agricultura africana também depende significativamente do enxofre proveniente do Golfo Pérsico.
O mercado de enxofre já enfrentava estoques escassos e preços elevados antes da crise. Com a interrupção do transporte, a tendência é de uma escalada ainda maior, afetando especialmente países como Marrocos, que dependem do enxofre para a produção de fertilizantes fosfatados.
Dependência e a busca por soluções sustentáveis
A crise atual expõe a vulnerabilidade da dependência excessiva de um pequeno grupo de produtores de fertilizantes. Especialistas como Raj Patel, economista político e especialista em alimentação sustentável, defendem a busca por soluções de longo prazo, como a diversificação de culturas e o uso de nutrientes disponíveis localmente, reduzindo a dependência de fertilizantes importados.
Países como Índia e Brasil já incentivam práticas agrícolas mais sustentáveis. No entanto, a solução imediata para a colheita deste ano ainda é um desafio, especialmente para agricultores no Hemisfério Norte que precisam aplicar fertilizantes na primavera.
A China, embora uma alternativa potencial, impôs restrições à exportação de fertilizantes para proteger seu próprio mercado. O resultado é um cenário de incerteza, com comerciantes já prevendo aumentos significativos nos preços, como o observado na ureia vendida no Egito, que subiu cerca de 37% em uma semana.
O aumento contínuo no custo dos fertilizantes pode forçar governos de países de baixa renda a subsidiar os custos de produção ou a assistir à elevação dos preços dos alimentos, agravando o endividamento e a desnutrição em regiões já vulneráveis. A negociação em dólares americanos, moeda que se valorizou com a guerra, encarece ainda mais os insumos importados para economias locais.