Relatório da IFI aponta que só um superávit primário acima de 2% do PIB pode estancar a trajetória da dívida, e que isso é condição para ampliar investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia
O ano de 2026 começa com a inflação convergindo para o centro da meta e sem sinais de medidas econômicas radicais, mas o grande desafio é fiscal.
A Instituição Fiscal Independente, IFI, alerta que o país precisaria gerar um superávit primário superior a 2% do PIB para conseguir estancar o crescimento da dívida pública.
O diagnóstico também ressalta a necessidade de mudanças no perfil do gasto público para viabilizar investimentos estratégicos, conforme informação divulgada pela Instituição Fiscal Independente, IFI.
Dívida e números que explicam o risco
A IFI registra que a Dívida Bruta do Governo Geral, DBGG, encerrou dezembro de 2025 em 78,7% do PIB, alta de 2,4 pontos percentuais em relação a dezembro de 2024. O avanço recente foi impulsionado pelo aumento das despesas com juros, que passaram de 8,0% do PIB nos 12 meses encerrados em junho para 8,9% do PIB em dezembro.
Para a IFI, sem um superávit primário consistente, a trajetória de dívida tende a se agravar, limitando espaço para políticas públicas e investimentos.
PAF 2026 e a estratégia do Tesouro
O Plano Anual de Financiamento, PAF, do Tesouro Nacional tenta mudar o perfil da dívida, reduzindo custo e alongando prazos, com transição para títulos prefixados e atrelados a índices de preços.
No entanto, o PAF ainda prevê um percentual significativo de títulos pós-fixados no curto prazo, e a IFI destaca que a taxa Selic elevada e a falta de ancoragem fiscal e externa tornam essa trajetória complexa.
O horizonte do Tesouro é alcançar, até 2035, que títulos remunerados pela Selic representem apenas 23% do estoque, uma queda em relação aos 48,3% registrados em 2025.
Estados, receita e o centro do ajuste
A IFI também chama atenção para as finanças estaduais e municipais, que pioraram em 2025, com resultado primário dos Estados e do Distrito Federal de 0,04% do PIB, devido ao crescimento real das despesas acima do das receitas.
Sobre o papel dos entes subnacionais, a IFI afirma, textualmente, que, “O ajuste fiscal tem seu maior centro de gravidade no governo federal, mas o comportamento das finanças públicas estaduais e municipais é muito importante e impõe um cuidadoso acompanhamento”.
A desaceleração da arrecadação indica um enfraquecimento da atividade econômica, reduzindo impostos e transferências da União, e tornando o cenário mais desafiador para alcançar um superávit primário ambicioso.
Medida sobre imposto de importação e impacto fiscal
O relatório examina ainda o aumento do Imposto de Importação sobre Bens de Capital, BK, e Bens de Informática e Telecomunicações, BIT, incluído no Orçamento Geral da União de 2026.
A IFI classifica a estratégia como controversa em termos produtivos, com resultados incertos, mas reconhece que o impacto fiscal é concreto, apontando uma expectativa de arrecadação adicional entre R$ 14 bilhões e R$ 20 bilhões, contribuição importante para o cumprimento das metas fiscais de 2026.
Diretores da IFI, Marcus Pestana e Alexandre Andrade, ressaltam que o superávit primário acima de 2% do PIB seria fundamental não apenas para estancar a dívida, mas também para permitir um aumento substancial de investimentos em infraestrutura e ciência e tecnologia, essenciais para elevar a produtividade da economia brasileira.
Por fim, a IFI avalia que reformas estruturais profundas provavelmente ficaram para 2027, devido ao calendário eleitoral, e que as ambições fiscais para 2026 devem se concentrar em alcançar um resultado primário próximo do equilíbrio, contando com exclusões previstas na legislação do teto de gastos e o uso do limite inferior da banda de tolerância.