Aguarde, Carregando
Pular para o conteúdo

Inflação e juros no Brasil em risco com escalada no Irã, entenda como alta do petróleo, dólar e cenários da XP, JPMorgan e Tesouro podem influenciar o Copom

Conflito no Irã coloca em risco choque de oferta no Estreito de Ormuz, pressiona preços de petróleo e dólar e pode complicar o início do ciclo de corte de juros no Brasil

O ataque militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã elevou a preocupação sobre um choque de oferta de energia global, com risco de interrupções no tráfego pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás natural mundial.

No Brasil, esse movimento pode pressionar a inflação e influenciar o Comitê de Política Monetária, que avalia começar a reduzir juros na reunião do Copom marcada para 17 e 18 de março.

Essas constatações reúnem estimativas da XP, alertas do Tesouro Nacional, cenários do JPMorgan e opiniões de especialistas ouvidos pelo mercado, conforme informações da XP, do Tesouro Nacional, do JPMorgan e de analistas consultados.

Risco imediato no preço do petróleo e efeito sobre o IPCA

Para a XP, o ataque abriu “uma caixa de pandora”, com impacto futuro que dependerá da duração e da abrangência do conflito. A plataforma Polymarket indica que cerca de dois terços dos apostadores projetam resolução já em março, e mais de 70% até o fim de abril.

De acordo com a XP, para cada aumento de US$ 10 no preço do barril de petróleo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode sofrer um acréscimo de aproximadamente 40 pontos-base em 2026. A XP aponta cenários, com barril em US$ 60 implicando inflação de 3,8%, em US$ 70 elevando para 4,2%, e em US$ 80 projetando 4,5%.

O JPMorgan alerta que o barril poderá atingir a cotação de US$ 100 a US$ 120 caso o Estreito de Ormuz fique bloqueado por três semanas, o que alteraria significativamente as projeções inflacionárias globais e domésticas.

Câmbio, percepção de risco e o dilema do Copom

Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, destaca a aversão ao risco, com o dólar ganhando força “não só perante a moeda brasileira, mas perante a todo o resto do mundo”. Esse fortalecimento do dólar somado à alta do petróleo cria uma pressão dupla sobre a inflação doméstica.

Paulo Vicente, especialista em estratégia e gestão pública e professor da Fundação Dom Cabral, afirma que mesmo a percepção de instabilidade já pode influenciar o Copom. Segundo ele, “a percepção [do Comitê] de que a situação está complicada já contamina [a decisão de corte de juro]. Não adianta você baixar 0,5 ponto percentual para ter que subir depois”.

Vicente acrescenta que, além do choque imediato, haverá uma fase de instabilidade na transição de governo no Irã, que “não será rápida, nem simples”, e lembra que “o governo americano declara que o objetivo é a troca de regime, ou seja, tirar o regime teocrático e substituir por alguma outra coisa”.

Visões oficiais e medidas de amortecimento no Brasil

Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional, apontou um patamar de segurança para a inflação até a cotação de US$ 85. Ele disse que caso o barril oscile entre US$ 75 e US$ 85, isso não deverá gerar pressão inflacionária, porque o país também vive “uma apreciação cambial significativa”.

Ceron ponderou que essa avaliação vale para uma tensão e incerteza “até certo ponto controlável, não num cenário de barril acima de US$ 100”.

No campo da política monetária, há pontos de vista distintos. Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA, afirma que o conflito não deve alterar, neste momento, o plano do Banco Central de iniciar o ciclo de cortes de juros em março. Leonardo Costa, economista do ASA, ressalta que dependerá da duração e intensidade do conflito e lembra que a política de suavização de preços da Petrobras tende a retardar o repasse, com o diesel podendo subir antes da gasolina.

Segundo Costa, um aumento de 10% na gasolina adiciona cerca de 20-25bps ao IPCA, enquanto o diesel impacta indiretamente por custos logísticos e cadeia produtiva.

Impactos fiscais, cenários e o que monitorar

Além dos efeitos inflacionários, a alta do petróleo pode trazer ganhos fiscais. A XP estima que um acréscimo de US$ 10 no Brent gere um ganho de R$ 10,7 bilhões em receitas fiscais líquidas, provenientes de royalties e dividendos da Petrobras.

Se o conflito for breve, o efeito pode ser limitado e o Copom pode iniciar cortes, ainda que com discurso mais cauteloso. Se a crise se prolongar e elevar o preço do barril de forma sustentada, a valorização do dólar pode interromper a sequência de queda do real e limitar a magnitude do ciclo de flexibilização monetária.

Para o investidor e o tomador de decisão, os pontos a acompanhar são a duração do conflito, sinais de bloqueio no Estreito de Ormuz, a trajetória do câmbio, e leituras de inflação nos próximos meses, porque uma mudança nas expectativas já pode alterar a curva de juros e a estratégia do Banco Central.