A barreira da percepção: por que brasileiros ainda veem investimento como privilégio para poucos
Apesar de 33% dos brasileiros terem conseguido guardar dinheiro no ano passado, uma parcela expressiva de 10% optou por não investir em produtos financeiros. A principal justificativa, segundo o estudo “Raio X do Investidor”, é a crença de que investir é “coisa de rico” no Brasil.
Essa percepção, que remonta a décadas passadas quando os valores mínimos eram elevados, persiste mesmo com a existência de produtos financeiros acessíveis atualmente. Especialistas apontam que essa mentalidade é um dos maiores obstáculos para a democratização do acesso ao mercado de capitais.
O estudo, realizado pela Anbima em parceria com o Datafolha, revela que muitos brasileiros não investem por acreditarem que não possuem patrimônio suficiente, mesmo aqueles com economias. A falta de conhecimento e a complexidade percebida do universo dos investimentos também contribuem para essa barreira.
O “mito” do alto investimento e a realidade atual
Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, destaca que a ideia de que investir exige grandes quantias é um equívoco. “Isso podia ser uma realidade há 20 anos, quando os valores mínimos de investimento eram altos, mas hoje há produtos muito baratos e acessíveis”, explica Billi.
Ele ressalta que o primeiro desafio da indústria financeira é desmistificar essa crença e mostrar que investir é para todos, independentemente do valor disponível. O objetivo é conectar os investimentos aos sonhos e objetivos pessoais, como viajar, pagar estudos ou comprar uma casa.
Conhecimento e objetivos: os caminhos para o investidor iniciante
Outra dificuldade apontada pela pesquisa é a falta de preparo e o receio da complexidade. Muitos entrevistados sentem que precisam estudar excessivamente para começar a investir, o que gera insegurança. Billi compara essa aversão a outras formas de investimento que já fazem parte do cotidiano, como comprar um carro para revender ou emprestar dinheiro com juros.
A chave, segundo ele, é a comunicação. “O desafio é conseguir falar a língua das pessoas, ligar o investimento aos objetivos”, afirma. Ele cita o exemplo dos bancos digitais, com suas “caixinhas” e “cofrinhos” segmentados por finalidade, como uma iniciativa que aproxima o público dos investimentos.
Avanços e o futuro da educação financeira no Brasil
Apesar dos desafios, a pesquisa “Raio X do Investidor” também aponta um crescimento no número de brasileiros que guardam parte do salário mensalmente. Em 2025, 20% dos poupadores separaram parte de seus rendimentos todo mês, um aumento em relação aos anos anteriores.
O universo de investidores no Brasil também cresceu, atingindo 60,6 milhões de pessoas nos últimos cinco anos. Com a universalização dos serviços bancários, a meta agora é desmistificar os investimentos e mostrar que eles são acessíveis e podem impulsionar a realização de sonhos.