Nas horas seguintes aos ataques coordenados de Estados Unidos e Israel, muitos moradores de Teerã relatam ter sido deixados à própria sorte, sem orientações claras sobre onde buscar abrigo ou segurança.
Linhas fixas ficaram fora do ar em boa parte da cidade, a maior parte dos serviços de celular sofreu interrupções, e quem tentou sair da capital enfrentou congestionamentos, longas filas em padarias e postos de gasolina.
Relatos de famílias correndo para escolas sem receber instruções, e cidadãos organizando por conta própria guias de sobrevivência circularam pelas redes, conforme informação divulgada pelo The New York Times.
Ausência de orientações oficiais e resposta do governo
O Conselho Supremo de Segurança Nacional informou que escolas e universidades ficariam fechadas até novo aviso, que os bancos seguiriam abertos e que órgãos públicos passariam a operar com 50% da capacidade, e afirmou ainda que o Irã, “já havia preparado antecipadamente todas as necessidades da sociedade e não há motivo para preocupação”.
Na prática, porém, moradores dizem que receberam pouca ou nenhuma orientação sobre abrigos, rotas seguras ou pontos de suporte, e que a TV estatal priorizou canções revolucionárias e mensagens de ataque aos Estados Unidos e a Israel em vez de informações práticas.
O prefeito de Teerã chegou a sugerir que estações de metrô e estacionamentos subterrâneos poderiam servir de abrigo, mas não houve preparação de infraestrutura mínima, como banheiros químicos, ventilação ou aquecimento.
Caos nas ruas, comunicações e infraestrutura afetadas
Por volta do meio-dia, muitos moradores de Teerã, cidade com cerca de 15 milhões de habitantes, tentavam deixar a capital, e as principais vias de saída ficaram congestionadas, segundo relatos.
Quem optou por ficar enfrentou filas em padarias e postos de combustíveis, enquanto postos foram lotados nos dias anteriores para consumir a cota de gasolina subsidiada, e bancos passaram a ter longas filas para saques, muitas vezes sem sucesso.
A NetBlocks, organização que monitora conexões de internet, informou que o acesso foi severamente prejudicado em todo o país, agravando a sensação de abandono ao impedir comunicações e checagem de informações em tempo real.
Depoimentos e a sensação de abandono
Gelareh, de 36 anos, disse que tentava fugir com o marido e a família para o norte, em direção ao Mar Cáspio, “Arrumamos as coisas às pressas quando os ataques começaram e saímos correndo de casa, mas pegamos um trânsito sufocante”, ela relatou, pedindo para não ter o sobrenome divulgado por medo de retaliação.
Roya, tradutora de 62 anos, resumiu o clima nas horas de tensão, “Estamos vivendo hora a hora, sem desgrudar da TV e do celular”, e completou, “O povo iraniano está completamente sozinho. Somos nós ajudando uns aos outros. O governo não aparece.”
Antes mesmo dos ataques, a população já vinha se organizando por conta própria, compartilhando infográficos caseiros sobre como agir em bombardeios e o que juntar em kits de emergência, diante da percepção de que as instruções oficiais eram insuficientes.
Impacto econômico e contexto político
Não há relatos imediatos de falta de alimentos, mas a inflação perto de 60% já tornava itens como carne, frango, ovos e laticínios inacessíveis para grande parte da classe média e dos trabalhadores.
O clima de urgência se soma a traumas recentes: em janeiro, o governo reprimiu protestos, e grupos de direitos humanos estimam que ao menos 7.000 pessoas foram mortas em três dias, número que pode ser maior, e novas manifestações voltaram a ocorrer em várias cidades a partir de 21 de fevereiro.
Analistas e moradores alertam que a sensação de abandono pelas autoridades pode agravar tensões internas, minar a confiança em instituições e aumentar a dependência de redes comunitárias informais para suporte em crises futuras.
Enquanto as comunicações e serviços básicos lutam para se restabelecer, e relatos de filas e falta de infraestrutura se multiplicam, muitos iranianos repetem a mesma queixa, dizendo que foram deixados sem instruções, sem abrigos preparados, e sem respostas práticas do governo diante dos ataques.