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Legado de Powell no Fed: Independência Preservada, Inflação Desafiadora e Críticas à Gestão Econômica

O fim de uma era no Federal Reserve: Jerome Powell deixa o cargo de presidente com um legado complexo.

Após oito anos à frente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell encerra seu ciclo como presidente da instituição nesta sexta-feira (15). Sua saída do posto, embora permaneça no conselho, marca o fim de um período turbulento, onde a inflação atingiu níveis não vistos em décadas e a independência do banco central foi constantemente testada.

Especialistas divergem sobre o impacto de sua gestão. Enquanto alguns apontam para uma falha no controle inflacionário, outros destacam sua postura firme contra pressões políticas. A forma como lidou com as crises e as decisões tomadas moldarão sua reputação nos próximos anos.

A avaliação de seu mandato é complexa, equilibrando sucessos iniciais na resposta à pandemia com erros que permitiram a escalada da inflação. Conforme apontado pelo economista Mohamed A. El-Erian e Hung Tran, ex-diretor adjunto do FMI, o legado de Powell pode ser mais político do que estritamente econômico, com a defesa da autonomia do Fed como ponto alto, mas com ressalvas significativas sobre sua atuação em momentos cruciais da economia americana.

A Resiliência Política Frente aos Ataques de Trump

Um dos aspectos mais lembrados da gestão de Jerome Powell é sua capacidade de resistir às pressões do então presidente Donald Trump, que frequentemente criticava suas decisões e exigia a redução das taxas de juros. Mohamed A. El-Erian, em artigo para o Project Syndicate, ressaltou que Powell será lembrado como um “baluarte contra ataques sem precedentes à independência do banco central”.

Hung Tran, pesquisador sênior no Atlantic Council, concordou, afirmando que a postura de Powell rendeu apoio público e estabeleceu um padrão elevado para seus sucessores na gestão do delicado equilíbrio entre as demandas presidenciais e o duplo mandato do Fed de manter a estabilidade de preços e o máximo emprego.

Falhas no Combate à Inflação e o Erro da Política Acomodatícia

Apesar da resiliência política, a condução da política monetária durante o período de inflação elevada gerou críticas contundentes. Tran apontou um “erro grave” do Fed ao manter sua política monetária acomodatícia por tempo demais, interpretando erroneamente os sinais de inflação acelerada em 2021 como “transitórios”.

Essa demora permitiu que a inflação atingisse um pico de **9,1% em junho de 2022**, forçando o Fed a elevar agressivamente as taxas de juros de perto de zero para a faixa de 4,25% a 4,5% até o final de 2022 e a implementar um aperto quantitativo para reduzir seu balanço patrimonial, que saltou de cerca de US$ 4 trilhões em 2019 para US$ 9 trilhões no início de 2022.

El-Erian destacou que as consequências dessa alta inflacionária ainda são sentidas, alimentando uma “preocupante crise de acessibilidade” para as famílias americanas. Além disso, a comunicação do Fed sob Powell foi criticada por aumentar a volatilidade do mercado, com sinais confusos em suas conferências de imprensa.

Supervisão Bancária e o Risco da Inação

Outro ponto de crítica reside nas falhas de supervisão bancária, que permitiram as dramáticas quebras do Silicon Valley Bank, Signature Bank e First Republic. Uma análise posterior do próprio Fed reconheceu que, embora vulnerabilidades ao risco de taxa de juros e liquidez tenham sido identificadas, os supervisores não agiram em tempo hábil para garantir que fossem tratadas.

A combinação de políticas fiscais e monetárias expansionistas para mitigar os efeitos da Covid-19, embora tenha resultado na recessão mais curta já registrada (apenas dois meses), também contribuiu para o ambiente inflacionário posterior. A taxa de desemprego, que subiu para 8% em 2020, caiu drasticamente para 3,6% em 2022, mostrando uma recuperação robusta do mercado de trabalho.

O Futuro de Powell e o Debate sobre o Fed

A decisão de Powell de permanecer como governador do Fed até o fim de seu mandato em janeiro de 2028 é vista de forma polarizadora. Para alguns, é um ato de compromisso em manter a “mão firme” no conselho e garantir a integridade das defesas institucionais do Fed. Para outros, pode ser interpretado como uma estratégia egoísta ou até mesmo um desrespeito ao seu sucessor e colegas do FOMC, com receios de que a medida possa gerar mais ataques a uma instituição já enfraquecida.

A permanência de Powell no conselho sugere que ele continuará a influenciar o debate sobre política monetária, pautado em dados econômicos e financeiros, e não em pressões políticas, um ponto crucial para a autonomia do Fed.