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Novo Desenrola pode reaquecer consumo e desafiar Banco Central com potencial de impulsionar inflação

Em meio a um cenário de inadimplência recorde, o mercado de crédito tem operado com maior cautela. Essa postura mais conservadora dos bancos tem gerado um descompasso entre o crescimento da renda e o ritmo do consumo. Contudo, especialistas apontam que o Novo Desenrola, programa de renegociação de dívidas, pode reverter essa tendência, aliviando o orçamento das famílias e impulsionando a demanda por bens e serviços.

Essa retomada do consumo, embora positiva para a economia, levanta preocupações sobre um possível aumento da inflação no curto prazo. A dinâmica do programa, que visa reduzir o peso das dívidas no orçamento familiar, pode liberar recursos para novas compras e até mesmo para a contratação de crédito, o que, segundo analistas, exigirá atenção do Banco Central (BC).

A avaliação geral é que o Novo Desenrola tem o potencial de estimular a economia, mas essa injeção de demanda pode gerar pressões inflacionárias, criando um dilema para a política monetária. O desafio será equilibrar o alívio financeiro para os consumidores com a meta de controle da inflação. Conforme informações divulgadas pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, essa é uma das principais preocupações de economistas e analistas de mercado.

Crédito mais cauteloso e impacto na renda disponível

O programa Novo Desenrola, ao reduzir o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas, aumenta a capacidade de gastos e a renda disponível das famílias. Alexandre Albuquerque, vice-presidente e analista sênior da Moody’s Ratings, explica que essa liberação de recursos pode se traduzir em maior consumo ou na busca por novos empréstimos, dependendo da cautela dos bancos.

Albuquerque ressalta que, considerando o cenário dos últimos 18 a 24 meses, os bancos devem manter a prudência, especialmente em linhas de crédito mais arriscadas, como o crédito pessoal. Ele ainda pontua que, embora o devedor deixe de ser negativado, a dívida não desaparece por completo, apenas tem seu valor reduzido.

Inflação e a visão do Banco Central

Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, compartilha a visão de que o Novo Desenrola pode ser desfavorável para o Banco Central, pois tende a impactar a inflação. Ele observa que o crescimento da renda já aponta para um aumento no consumo, e o programa pode intensificar essa tendência.

O próprio Comitê de Política Monetária (Copom) já havia sinalizado, em sua reunião de abril, que uma inflação de serviços mais resiliente do que o projetado, impulsionada por um hiato do produto mais positivo, representava um risco de alta para a inflação. Essa conjuntura pode ser agravada pelo efeito do Novo Desenrola no aumento da demanda.

Conflito de objetivos e perspectivas de juros

Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, avalia que os efeitos inflacionários do programa ainda são mais teóricos, pois ele não opera em plena capacidade. No entanto, ele identifica um conflito de objetivos entre o governo, que busca estimular a economia com medidas fiscais e parafiscais, e o Banco Central, focado em conter a inflação.

Padovani projeta que essa divergência pode resultar em juros elevados por um período mais longo, o que, paradoxalmente, contraria um dos objetivos do Novo Desenrola, que é facilitar o acesso ao crédito e o consumo. A alta taxa de juros encarece o crédito e pode desestimular novas contratações, mesmo com a renda disponível ampliada.

Outros fatores na condução da política monetária

Apesar das preocupações inflacionárias, Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, acredita que, no curto prazo, fatores externos como o conflito no Irã, o câmbio e os preços de commodities, especialmente de alimentos e petróleo, terão um peso maior na condução da política monetária do que o Novo Desenrola.

Salles afirma que o Banco Central acompanhará e estimará os impactos do programa, mas a expectativa é que o efeito inflacionário direto seja baixo. Enquanto isso, a inadimplência continua a registrar recordes, com 82,8 milhões de brasileiros com o CPF negativado em março, segundo a Serasa Experian, evidenciando a fragilidade financeira de parte da população.

By Vanessa