Ouro em queda livre: conflito no Irã não impulsiona o metal como esperado
O preço do ouro tem surpreendido analistas e investidores, registrando uma queda acentuada de 22% desde o pico atingido em janeiro. O metal, tradicionalmente visto como um porto seguro em tempos de instabilidade geopolítica, desvalorizou-se mesmo com a escalada do conflito no Irã.
A queda de mais de US$ 1.238,00 desde o pico, que se intensificou após o início da guerra, contraria a expectativa de que o ouro se valorizaria em cenários de turbulência. Essa desvalorização impactou fundos multimercados que apostavam na alta do metal.
Analistas buscam entender os motivos por trás dessa repentina desvalorização do ouro e qual a sua tendência para o médio prazo. As informações são baseadas em análises de economistas e especialistas de mercado.
Correção de preços e fluxo de venda inesperado
Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset, explica que os preços do ouro atingiram um máximo histórico no final de janeiro, iniciando uma correção que persiste. O fluxo de compra de bancos centrais impulsionou a tendência inicial de alta, mas a ausência de novas sanções e a permissão para negociação de petróleo russo diminuíram o apelo do ouro como hedge contra conflitos.
A expectativa de queda nas taxas de juros americanas, que poderia beneficiar o ouro, foi adiada. Marques prevê que a correção possa continuar até o nível de US$ 4.200, mas mantém a tendência de alta no longo prazo.
Vendas forçadas e pressão especulativa
Danilo Moreno, analista da Investo, aponta que o conflito no Irã, em vez de ser um catalisador para a busca por proteção no ouro, está gerando pressão vendedora. Produtores do Oriente Médio, com receitas de petróleo e gás afetadas pela guerra, estariam liquidando ativos de alta liquidez, incluindo ouro, para cobrir necessidades de caixa imediatas.
Esse movimento de venda forçada, motivado por necessidade de liquidez, soma-se a um fator técnico relevante: o desmonte de posições especulativas em ETFs de ouro. Com a queda dos preços, investidores tendem a liquidar suas posições rapidamente, amplificando o movimento de queda.
Ambiente macroeconômico e custo de oportunidade
O ambiente macroeconômico nos Estados Unidos também contribui para a desvalorização do ouro. O Federal Reserve mantém cautela nos cortes de juros, e os rendimentos dos títulos do Tesouro americano voltam a subir, aumentando o custo de oportunidade de manter ouro, que não paga juros.
Moreno acredita que os elementos técnicos, como o desmonte de posições especulativas e as vendas forçadas, tendem a ser passageiros. A pressão se dissipará após o excesso de posições ser eliminado.
Perspectivas de longo prazo para o ouro
Apesar das correções de curto prazo, Moreno mantém uma visão positiva para o ouro no longo prazo. Os fundamentos estruturais de demanda por ouro permanecem robustos, impulsionados pelo aumento dos gastos globais com defesa e o déficit fiscal americano, que aumentam os riscos da dívida soberana dos EUA.
Bancos centrais de países emergentes continuam comprando ouro para diversificar reservas, reduzindo a dependência do dólar. Com a normalização do crescimento da riqueza global, a demanda privada por ouro deve retornar com força. A leitura mais adequada do momento atual é de uma correção técnica dentro de uma tendência estrutural de alta.
Oportunidade de entrada e diversificação
Para investidores brasileiros, fundos negociados em bolsa (ETFs) lastreados em ouro, como o GLDX11, oferecem acesso direto ao preço do metal. O ajuste de preços atual pode representar um ponto de entrada mais interessante do que as máximas recentes, mas Moreno recomenda uma entrada gradual.
Marcos Praça, da Zero Markets, concorda que o ouro estava muito valorizado antes da guerra no Irã, o que favoreceu a realização de lucros e a corrida para o dólar. Ele também aponta a alta dos juros dos títulos americanos como um fator que afasta investidores do ouro.
Apesar da queda no curto prazo, Praça vê uma tendência positiva para o ouro no médio e longo prazo. Ele sugere que a compra de ouro só faz sentido com o objetivo de proteção de longo prazo para parte da carteira, e recomenda aproveitar a alta dos juros em títulos de renda fixa no momento.
Razões adicionais para a queda do ouro
Robin Brooks, ex-estrategista-chefe de Moedas do Goldman Sachs, aponta três razões para a queda do ouro: o aumento da base de investidores, atraindo participantes menos experientes; a realização de lucros por parte desses investidores diante da incerteza da guerra; e a necessidade de grandes investidores cobrirem posições alavancadas em outros mercados. Apesar disso, Brooks mantém a visão de tendência de alta para o ouro no longo prazo.