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Petrobras: A “vaca leiteira” ainda produz? Dividendos da gigante do petróleo dividem opiniões após balanço do 1º trimestre

Petrobras: Dividendos em xeque após balanço trimestral, analistas debatem o futuro da “vaca leiteira”

O mais recente balanço da Petrobras (PETR3, PETR4) referente ao primeiro trimestre de 2024 gerou reações mistas no mercado acionário brasileiro. Embora a produção própria tenha atingido um recorde, o lucro líquido e, consequentemente, a distribuição de dividendos, ficaram aquém das expectativas de muitos investidores, levantando dúvidas sobre a capacidade da estatal de manter seu posto como uma confiável fonte de renda passiva.

O resultado financeiro, impactado por fatores como o câmbio, trouxe um alerta para o fluxo de caixa livre, que apresentou uma queda expressiva de quase 23%. Essa redução levanta questões sobre a disponibilidade de recursos para futuros pagamentos de proventos, um dos principais atrativos da ação PETR4 para quem busca rendimentos.

Apesar das preocupações pontuais, alguns especialistas mantêm uma visão otimista, argumentando que a empresa continua sólida e que o cenário de preços do petróleo pode favorecer retornos futuros. Acompanhe os detalhes e as diferentes perspectivas de mercado sobre os dividendos da Petrobras.

Produção recorde, mas lucro e caixa sobem menos que o esperado

Rodrigo Caetano, gerente de investimentos no Sicredi Soma, destacou que o primeiro trimestre teve “dois lados”. Pelo lado positivo, a Petrobras bateu “recorde de produção própria”. No entanto, ele ressalta que o lucro líquido de R$ 32,66 bilhões “precisa ser analisado com mais cuidado”, pois foi fortemente influenciado pelo câmbio.

O principal ponto de atenção, segundo Caetano, é a queda de quase 23% no fluxo de caixa livre. “A empresa produziu mais, continuou lucrativa, mas sobrou menos caixa para dividendos”, conclui o especialista, indicando uma potencial limitação nos proventos futuros.

Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, resume que o trimestre foi “operacionalmente forte, mas financeiramente abaixo do que o mercado esperava em alguns pontos”. Ele aponta que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) ficou “abaixo até das projeções mais conservadoras do mercado”.

Dividendos anunciados aquém das projeções de mercado

A frustração com os resultados se refletiu diretamente nas expectativas de dividendos. A Petrobras anunciou a distribuição de cerca de US$ 1,8 bilhão (aproximadamente R$ 9,03 bilhões), um valor inferior ao consenso de mercado, que projetava algo em torno de US$ 2,4 bilhões. Essa diferença gerou apreensão entre investidores que contavam com um retorno maior.

João Daronco, analista da Suno Research, avalia que não há um abalo nos fundamentos da empresa, mas sim uma “frustração de expectativa”. Ele explica que, com o preço do Brent elevado devido a conflitos internacionais, esperava-se que a Petrobras gerasse “uma quantidade de caixa significativamente maior”.

Olhando para o futuro, Caetano adverte que, “se petróleo, dólar ou eficiência não compensarem, os proventos podem continuar abaixo das expectativas”. Daronco reforça que “com pressões dentro do fluxo de caixa livre, há uma diminuição da capacidade de pagar dividendos”. Além disso, ele lembra que o “longo prazo de uma empresa estatal muda a cada quatro anos”, tornando as projeções mais complexas.

Fernando Melgarejo, diretor-executivo Financeiro e de Relacionamento com Investidores, declarou em teleconferência que a possibilidade de pagar dividendos extraordinários neste ano é “muito baixa”, dada a flutuação do preço do petróleo.

Visões divergentes sobre o potencial de renda passiva

Por outro lado, Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, pondera que o anúncio “não é um desastre”. Ele argumenta que “o governo, o principal recebedor desses dividendos, também está precisando do dinheiro para fechar suas contas, e para o investidor não é um dividendo ruim”. Contudo, Sant’Anna observa que o investidor percebe que a empresa “não repassará as margens no curto prazo, limitando a possibilidade de escalar os ganhos”.

A Ibiuna também demonstra otimismo. André Lion, gestor de renda variável da casa, acredita que um preço do petróleo “estruturalmente mais alto” pode “mudar completamente a história da Petrobras”, fazendo a empresa voltar a gerar muito caixa e pagar dividendos. Por essa razão, a gestora “aumentou bastante” sua posição na ação.

Régis Chinchila, analista de research da Terra Investimentos, simulou um investimento de R$ 1 mil em PETR4. Considerando o preço de R$ 46,43 por ação na véspera, seria possível comprar cerca de 21 ações. Com a distribuição anunciada de R$ 0,70097272 por ação, o retorno bruto seria de aproximadamente R$ 14,72, um rendimento de cerca de 1,47% apenas com essa remuneração específica.

Para ter direito a esses proventos, o investidor precisa estar posicionado nas ações até o fechamento do pregão de 1º de junho. As ações passarão a ser negociadas na condição “ex-direitos” a partir de 2 de junho, e o pagamento ocorrerá em duas parcelas, em 20 de agosto e 21 de setembro.

Projeções futuras e recomendações de analistas

Apesar dos desafios, o potencial da Petrobras como “vaca leiteira” ainda é considerado forte por alguns analistas. Chinchila projetou que um investimento de R$ 1 mil, com um dividend yield de 11% em 2026, renderia cerca de R$ 110 em proventos. Em um horizonte de três anos (até 2028), o acúmulo poderia chegar a R$ 320, e em cinco anos, com um yield projetado de 13,2% em 2029, o montante acumulado poderia se aproximar de R$ 580.

É importante notar que essas simulações são baseadas em projeções e consideram que o investidor manterá o capital inicial sem reinvestir os dividendos recebidos.

Em relação às estratégias, João Daronco recomenda ajustes, afirmando que “a oportunidade de compra já ficou para trás”, embora a empresa ainda esteja bem precificada e não deva ser retirada de carteiras. Rodrigo Caetano aconselha a “ajustar as expectativas”, pois “o foco em dividendos extraordinários pode estar ficando mais moderado”.

Ferreira alerta que “investir só por apostar na média de payout recente dos últimos anos pode ser uma estratégia muito arriscada”. Ele sugere que a Petrobras “não figura mais no topo das opções” ao filtrar as melhores pagadoras de dividendos da Bolsa.

Contudo, Felipe Sant’Anna mantém uma visão favorável, desde que o investidor “aceite os riscos embutidos”. Ele considera a Petrobras “uma boa pagadora de dividendos, uma empresa sólida, perene e está no top 5 papéis para exposição no Brasil”, mantendo-a como uma opção válida para renda passiva.