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A sensação de que o dinheiro não rende: entenda a diferença entre o que os índices mostram e o que o bolso sente no Brasil

Apesar de indicadores econômicos apontarem para uma estabilidade nos preços médios, muitos brasileiros sentem que a renda não acompanha o custo de vida. Essa disparidade entre a percepção e os dados oficiais gera frustração e questionamentos sobre a saúde financeira do país.

Diversos fatores, que vão desde a qualificação da mão de obra até a forma como os preços são percebidos no dia a dia, contribuem para essa sensação. Entender essas dinâmicas é fundamental para compreender os desafios econômicos enfrentados pela população.

Nesta matéria, vamos aprofundar os motivos por trás dessa percepção e como diferentes indicadores de inflação podem gerar visões distintas da realidade econômica. Vamos explorar também a preocupação do Banco Central com essa defasagem.

Três pilares da baixa renda no Brasil, segundo especialista

Rodrigo Simões, diretor da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP), aponta três fatores cruciais que explicam por que a renda no Brasil não tem acompanhado o custo de vida. Em primeiro lugar, a **baixa qualificação da mão de obra** limita o potencial de ganhos. Em seguida, a **baixa produtividade** obriga o trabalhador a dedicar mais horas para obter o mesmo retorno. Por fim, uma **economia ainda relativamente fechada** impede um crescimento mais expressivo da renda.

Simões ressalta que esses três pontos são essenciais para a prosperidade de um país. “A produção no mundo inteiro cresce, mas, onde houve menos investimento em educação, tecnologia, fábricas e desenvolvimento local, a população sofre porque não consegue dar uma ‘estilingada’ na renda”, explica. Essa realidade contribui para a sensação de que a inflação está descontrolada, mesmo quando os índices oficiais indicam estabilidade.

O papel do consumo na percepção da inflação

Heron do Carmo, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, explica que o comportamento de consumo tem um papel relevante na percepção da inflação. As pessoas não sentem o aumento de preços de forma homogênea, mas sim pelos itens mais frequentes em suas rotinas de compra.

“Quando há muita volatilidade, isso perturba. E não é só no Brasil”, afirma, citando o incômodo de consumidores com o preço de alimentos e gasolina. “Se você pegar um Uber ou um táxi, certamente o motorista vai reclamar do preço da gasolina, que é algo que ele compra todo dia. Para quem não tem carro, essa inflação vai bater diferente.” Essa percepção é moldada pelos produtos que mais impactam o orçamento familiar.

Supermercados, farmácias e padarias atendem públicos distintos, mas a sensação de inflação tende a ser determinada pelos itens mais recorrentes no carrinho de compras. Quando estes sobem, quedas em outros preços podem passar despercebidas. “Se sobe o preço de alguma coisa, isso constrange o padrão de vida das pessoas”, resume Heron.

Endividamento e a sensação de perda de poder de compra

Alexandre Maluf, economista da XP Investimentos, concorda que a diferença entre a percepção e os indicadores não é exclusiva do Brasil e se intensificou após a pandemia. “As pessoas comparam quanto gastavam antes para comprar uma quantidade de produtos e quanto precisam gastar hoje para comprar a mesma quantidade”, afirma.

Maluf adiciona que o **endividamento das famílias** agrava a sensação de perda de poder de compra. O comprometimento de uma parcela maior da renda força cortes, justamente nos itens mais consumidos. Ele cita um estudo do Ipea que indica que, mesmo com a desinflação de alimentos entre 2023 e 2025, a percepção de “tudo mais caro” persiste.

A diferença entre IPCA e INPC e a percepção dos mais pobres

Heron e Maluf chamam atenção para as diferenças entre os indicadores de inflação. O **IPCA**, referência para o Banco Central, abrange famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos e, por ser o índice oficial, domina o noticiário. Já o **INPC** cobre rendas de 1 a 5 salários mínimos e reflete melhor a inflação percebida pelas camadas de menor renda, pois é mais sensível a itens básicos como alimentação e transporte.

O fato de o INPC receber menos destaque que o IPCA amplia a distância entre o debate público e a experiência cotidiana das famílias de menor poder aquisitivo, que sentem o impacto da alta dos preços de forma mais acentuada em suas despesas essenciais.

Preocupação do Banco Central com a percepção da inflação

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, expressou preocupação com a percepção social sobre a inflação. Ele mencionou choques recentes como a pandemia, a guerra na Ucrânia e a alta do petróleo, que elevam o nível de preços e podem ameaçar a credibilidade da instituição.

Galípolo destacou que, embora o Banco Central tenha reduzido a inflação corrente, o IPCA acumula alta de 42,78% desde janeiro de 2020, e os alimentos no domicílio subiram 64,35%, impactando mais os mais pobres. Ele ressaltou que a credibilidade do BC está ligada ao controle das expectativas inflacionárias, mas que a sensação de custo de vida mais alto no dia a dia representa um “problema novo” a ser enfrentado.

O presidente do BC observou que, mesmo que a alta do petróleo seja vista como um choque transitório, a forma como a população percebe o aumento acumulado de preços é crucial para a autoridade monetária.

By Vanessa