Banco Central alerta para explosão de empréstimos sem garantia e elevação do endividamento familiar
O Brasil tem testemunhado um aumento alarmante na concessão de empréstimos pessoais sem a necessidade de garantias nos últimos anos. Paralelamente, as famílias brasileiras estão comprometendo uma parcela cada vez maior de sua renda com o uso de cartões de crédito, configurando um cenário de superendividamento que o Banco Central (BC) classifica como “um problema crescente” no país.
A digitalização e a maior facilidade de acesso ao crédito, embora apresentem aspectos positivos, também expõem cidadãos a riscos de endividamento excessivo. Diante dessa realidade, o BC enfatiza a urgência de ações focadas em educação financeira, além de “medidas robustas” de regulação e supervisão para proteger os consumidores.
“A facilidade de acesso ao crédito, sem uma oferta responsável e adequada ao perfil do cliente por parte das instituições, sem uma devida proteção ao consumidor e, não menos importante, sem a devida educação financeira, leva muitos brasileiros a contraírem dívidas que não conseguem pagar”, declarou a autarquia em seu recente relatório sobre cidadania financeira.
Aumento Expressivo de Empréstimos e Dívidas no Cartão de Crédito
Dados divulgados pelo Banco Central revelam um cenário preocupante: o número de brasileiros com empréstimos pessoais sem garantia mais que triplicou desde 2020, alcançando a marca de 41,7 milhões de pessoas no final de 2024. Este aumento significativo reflete uma maior dependência de crédito de curto prazo e sem lastro.
No mesmo período, o número de clientes com dívidas em cartões de crédito, seja na modalidade rotativo ou parcelado, apresentou um crescimento expressivo de 55%, totalizando cerca de 53 milhões de pessoas. O relatório também aponta que o Brasil já possui mais cartões de crédito ativos, superando 220 milhões, do que habitantes.
Comprometimento da Renda Familiar e Juros Elevados
Mais da metade das pessoas que utilizam cartão de crédito possui dívidas no rotativo, com juros que ultrapassam os 430% ao ano, ou no parcelado, com taxas médias de cerca de 200% ao ano. Essa realidade eleva o comprometimento médio da renda do usuário do cartão de crédito, que saltou de 38,5% em 2020 para 54% em 2024.
O governo federal, ciente do problema, prepara um novo pacote de medidas para aliviar as famílias endividadas. O plano prevê a renegociação de dívidas com descontos, mediante a concessão de garantias pela União, buscando dar um respiro a quem se encontra em situação de vulnerabilidade financeira.
Governo Busca Soluções em Meio ao Avanço do Endividamento
Em uma tentativa de conter o avanço do superendividamento, o governo já implementou o programa Desenrola entre 2023 e 2024, que renegociou R$ 53 bilhões em dívidas para aproximadamente 15 milhões de pessoas. Apesar dessas iniciativas, os dados de endividamento da população continuam em alta, impulsionados por estímulos ao crédito e taxas de juros elevadas.
O relatório do BC também destacou a necessidade de aprofundar os estudos sobre o fenômeno das “bets” (apostas online), que podem intensificar os riscos de endividamento e perda de renda, especialmente entre os públicos mais vulneráveis, adicionando mais uma camada de preocupação à já complexa situação financeira de muitos brasileiros.