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Tesouro IPCA+: Ganho com Marcação a Mercado Virou Lenda Urbana? Entenda a Frustração do Investidor e Seus Erros

Tesouro IPCA+: Ganho com Marcação a Mercado Virou Lenda Urbana? Entenda a Frustração do Investidor e Seus Erros

A recomendação de investir em Tesouro IPCA+ (NTN-Bs) nos últimos meses parecia uma aposta segura para muitos. A ideia era aproveitar os juros reais elevados antes de uma queda esperada. No entanto, a realidade se mostrou diferente, e investidores que buscavam ganhos rápidos agora veem suas carteiras no vermelho, gerando um sentimento de frustração e questionamentos sobre a estratégia.

Fatores inesperados como a guerra no Oriente Médio, mudanças no ritmo de corte da Selic e o cenário eleitoral mantiveram os juros reais em patamares elevados, acima de 7,80%. Essa volatilidade pode incomodar quem não está acostumado com a marcação a mercado, onde o valor do título flutua diariamente, e o prejuízo só se concretiza se o investidor vender o papel no prejuízo.

Diante desse cenário, a pergunta que paira no mercado é: o mercado errou as projeções ou o investidor não soube executar a estratégia? Conforme informações divulgadas por especialistas, a resposta envolve uma combinação de ambos os fatores, além de uma má interpretação do horizonte de investimento. Vamos entender os detalhes.

Mercado e Investidor: Uma Combinação de Equívocos

Para José Aureo Viana, sócio da Blue3 Investimentos, o principal equívoco do investidor foi tratar uma leitura de cenário como certeza de retorno. Ele ressalta que o mercado não evolui em linha reta e que eventos não antecipados alteram rapidamente a precificação dos ativos. A sinalização de mercado não deve ser confundida com uma ‘dica’ de ganho garantido.

Robson Casagrande, sócio da GT Capital, complementa que o mercado precificou um fechamento de curva rápido que dependia de um cenário perfeito que não se concretizou. Do lado do investidor, o erro foi subestimar a volatilidade do duration (prazo do título), transformando uma estratégia de oportunidade em uma aposta de curto prazo.

Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos, é categórico ao afirmar que o problema não foi a tese, mas sim o horizonte de investimento. A expectativa de ganho rápido com a marcação a mercado em títulos de renda fixa, que já não era a estratégia favorita de muitos analistas, parece distante da realidade atual.

Marcação a Mercado: Não é Lenda, Mas Exige Paciência

Viana explica que a marcação a mercado não desapareceu, mas no ciclo atual, o movimento se mostrou mais demorado, volátil e dependente de fatores macroeconômicos e fiscais. Ele alerta que essa estratégia exige mais horizonte, disciplina e compreensão de risco do que muitos imaginavam.

João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital, reforça que a percepção de lenda urbana para o investidor pessoa física decorre da volatilidade de curto prazo, mas a lógica econômica de longo prazo permanece válida. Cleiton Souza resume de forma assertiva: “marcação a mercado não é uma estratégia, é uma consequência de cenário”.

O Que Fazer com Seu Tesouro IPCA+?

Diante da volatilidade, a recomendação é encarar os títulos do Tesouro IPCA+ de vencimento longo como um instrumento de preservação de patrimônio. Com taxas reais elevadas, o investidor compra um ativo de altíssima qualidade com uma taxa historicamente atrativa, o que justifica a alocação com foco em longo prazo.

Viana sugere que a possibilidade de ganho de capital continua existindo, mas deve ser tratada como um benefício adicional, e não a principal razão da alocação. Para o investidor que comprou NTN-B longa pensando em dinheiro rápido e agora está com o papel desvalorizado, a decisão entre vender com prejuízo ou carregar até o vencimento depende da necessidade de liquidez.

Se o dinheiro não fará falta no curto prazo, a ordem é segurar. Vender apenas para interromper o desconforto pode transformar uma perda contábil em prejuízo efetivo. A decisão correta passa por reavaliar objetivos, prazo e perfil, e não apenas reagir ao deságio momentâneo.

Alternativas para Lidar com a Volatilidade

Para quem deseja travar taxas atrativas em IPCA+ mas não tem estômago para ver o patrimônio oscilar, a estratégia não é abandonar a proteção contra a inflação, mas adaptar o instrumento. Moreno sugere títulos do Tesouro IPCA+ com vencimentos mais próximos, como 2026 ou 2030, que oferecem menor sensibilidade à marcação a mercado.

Delegar a um gestor também é um caminho. Fundos de inflação com gestão ativa permitem que profissionais façam o gerenciamento de duration e o ajuste de exposição, possibilitando ao investidor permanecer exposto ao fator inflação sem a ansiedade da marcação a mercado diária, como recomenda Casagrande.

O crédito privado isento também surge como alternativa, especialmente para investidores qualificados. Contudo, Casagrande alerta que instrumentos como CRIs, CRAs e debêntures incentivadas exigem análise criteriosa, pois trocam o risco de duration pelo risco de crédito (calote).