Análise, ação militar de Trump contra o Irã ocorreu sem evidência de ataque iminente, gera dúvidas sobre objetivos, legalidade e riscos de escalada na região
Donald Trump autorizou um amplo ataque ao Irã no início da madrugada de sábado, e ao mesmo tempo pediu que o povo iraniano derrubasse seu próprio governo, levando a uma ação que especialistas classificam como de escolha, e não de necessidade.
A ofensiva não foi motivada por uma ameaça imediata detectável, e autoridades de inteligência já avaliaram que o Irã está distante de conseguir uma arma nuclear significativa, em parte por ataques anteriores.
O episódio expôs também uma comunicação confusa do governo iraniano durante os ataques, e deixou aliados questionando as justificativas apresentadas, conforme informação divulgada pelo The New York Times.
Por que Trump atacou agora e o que ele pretende
Ao decidir atacar o Irã neste momento, Trump aproveitou, aparentemente, uma janela de fraqueza do regime, na tentativa de acelerar uma mudança de governo, e para atingir líderes como o aiatolá Ali Khamenei e a Guarda Revolucionária.
Não houve, segundo relatórios, sinais de que o país representasse uma ameaça imediata aos Estados Unidos, a aliados ou a bases americanas na região. A própria Agência de Inteligência de Defesa, a DIA, concluiu no ano passado, que levaria uma década até que o Irã superasse obstáculos tecnológicos e de produção para montar um arsenal significativo.
Especialistas descrevem a decisão como um ataque preventivo antecipando uma ameaça futura, e questionam o motivo de priorizar o Irã frente a outras potências com arsenais nucleares ou capacidades em expansão.
Aspectos legais e diplomáticos
A ação levanta dúvidas sobre a legalidade internacional, porque a diferença entre uma guerra de necessidade e uma guerra de escolha é grande. Um ataque preventivo legítimo ocorre diante de uma ofensiva iminente, enquanto um ataque para antecipar uma ameaça distante é considerado ilegal por grande parte do direito internacional.
Na sua justificativa pública, Trump reuniu queixas acumuladas ao longo de mais de quatro décadas de confrontos com o Irã, e declarou, em vídeo, que “Não vamos tolerar isso por mais tempo”.
O presidente ainda afirmou a repórteres do The New York Times, em entrevista em janeiro, “Eu não preciso de direito internacional”. Ele complementou, “Depende de qual é a sua definição de direito internacional”, palavras que indicam que normas externas não seriam decisivas para sua política.
Reações de aliados e riscos estratégicos
Aliados próximos demonstraram reservas. Altos funcionários europeus e do Golfo disseram ter ouvido pouco entusiasmo nas conversas com assessores de alto escalão da Casa Branca, e que não houve justificativa jurídica plausível para o ataque naquele momento.
O Reino Unido, por exemplo, proibiu o uso da base de Diego Garcia e de outras instalações para lançamento de aviões de combate e bombardeiros americanos, o que revela preocupação entre parceiros sobre o alcance da operação, denominada pelo Pentágono como Operação Fúria Épica.
Richard N. Haass, ex-presidente do Council on Foreign Relations, afirmou, “Não é como se o Irã representasse uma ameaça aos nossos interesses diferente da que representa há 47 anos”. Haass comparou a decisão à segunda guerra do Iraque, dizendo, “Assim como na segunda guerra do Iraque, não havia necessidade de atacar o Irã, havia uma oportunidade”.
Ele também observou que, no caso de um ataque preventivo clássico, falta responder ao “por que agora?”, já que existiam outras opções, como acordos diplomáticos sob pressão militar, embargos econômicos e interceptação de navios iranianos.
Possíveis consequências e lições históricas
Historiadores e analistas provavelmente farão duas perguntas centrais, por que agir agora e por que escolher o Irã como alvo prioritário. A iniciativa marca o sétimo ataque a um país estrangeiro realizado por Trump desde que assumiu a Presidência, e pode ser avaliada à luz do aviso de Winston Churchill, que alertou que quem cede à febre da guerra se torna escravo de eventos imprevisíveis.
Há poucos exemplos históricos de derrubar um governo de um grande país, com cerca de 90 milhões de habitantes, apenas com poder aéreo. Se há um plano conjunto entre Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, os detalhes não foram compartilhados nem com aliados mais próximos.
O futuro mostrará se a estratégia foi eficaz para conter ameaças ou se abrirá espaço para uma escalada regional difícil de controlar.