Nos últimos dias de Maduro, a rotina do presidente misturou confiança pública e apreensão privada, enquanto os Estados Unidos aumentavam pressão militar e econômica.
Em casa, em Caracas, Maduro aparentava tranquilidade, mas reduziu compromissos e passou a temer traições internas e infiltrações, segundo relatos de pessoas próximas.
O relato a seguir é baseado em entrevistas com uma dúzia de altos funcionários, amigos e aliados de Maduro, e com pessoas próximas a autoridades americanas, conforme essas fontes.
O cálculo errôneo que afastou a negociação
Maduro, de 63 anos, acreditou que poderia negociar um acordo ou deixar o cargo em momento a sua escolha, e manteve uma postura desafiadora até o fim de 2025, segundo pessoas próximas a ele.
Em uma única conversa direta conhecida, em 21 de novembro, Trump e Maduro falaram por cinco a dez minutos. As mesmas fontes dizem que ambos saíram da ligação com interpretações opostas do resultado.
Maduro entendeu que havia ganho tempo para negociar, enquanto a Casa Branca concluiu que o venezuelano não apresentara um plano de saída, o que acelerou a escalada de medidas americanas.
Juan Barreto, ex-funcionário que já foi aliado de Maduro, resumiu a dinâmica, dizendo, “Depois de anos no poder, você tende a superestimar suas capacidades”, frase usada por assessores para explicar o isolamento do presidente.
Pressão econômica, bloqueio do petróleo e isolamento
Em 10 de dezembro, os EUA deteriam um petroleiro com carga venezuelana, dando início a um bloqueio parcial que paralisou a receita mais importante do país, segundo relatos das fontes.
O bloqueio obrigou navios-tanque a ficar parados e empresas a redirecionar combustíveis a poucas instalações, deixando a indústria petrolífera à beira do colapso.
Com as finanças nacionais em frangalhos, autoridades próximas a Maduro informaram que ele considerou, já em meados de dezembro, propor eleições antecipadas em 2026, ou entregar o posto a outro candidato do partido, mas nunca cogitou renunciar imediatamente.
Washington, por sua vez, ofereceu uma saída negociada em 23 de dezembro, incluindo garantias sobre fortuna e exílio, mas a oferta foi rejeitada por Maduro, segundo um alto funcionário americano consultado.
Isolamento, medo de traição e desgaste das defesas
À medida que o impasse avançava, Maduro passou a desconfiar de sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, que consolidou controle sobre cofres e prioridades econômicas.
Para se proteger de vigilância aérea e satelital, o presidente reduziu aparições públicas e passou a usar transmissões gravadas, além de se apoiar num contingente menor e mais próximo de sua Guarda Presidencial.
Essa guarda, segundo fontes próximas, tem cerca de 1.400 homens, mas a concentração do presidente em poucos locais, visando dissimular sua localização, acabou reduzindo a proteção contra um ataque externo.
A operação final e o novo capítulo da região
Na madrugada de 3 de janeiro, aeronaves militares dos Estados Unidos atacaram quatro bases na Venezuela, dominaram as equipes de segurança de Maduro e capturaram o presidente e sua esposa, de acordo com os relatos das fontes.
Fontes apontam que a operação matou mais de 100 cubanos e venezuelanos, marcando o primeiro ataque estrangeiro em território venezuelano em mais de um século, e redefinindo o papel dos EUA na América Latina.
O episódio, para autoridades consultadas, inaugurou uma era descrita nos bastidores como de “diplomacia de canhoneira”, em que pressionar com força militar passou a ser parte aberta da estratégia diplomática na região.
Para aliados e assessores de Maduro, o erro central foi subestimar a determinação da Casa Branca, e superestimar a própria capacidade de resistir a sanções e a uma ação direta dos EUA.
O legado imediato é uma Venezuela sem seu líder, com o aparelho estatal abalado, e uma nova fase de relações hemisféricas marcada pela intervenção aberta e pela incerteza sobre os próximos passos políticos e econômicos no país, segundo as fontes consultadas.