Washington inova com imposto sobre milionários e abre debate nacional sobre tributação de grandes fortunas
Após um debate que se estendeu por 25 horas e incluiu mais de 81 emendas apresentadas por republicanos, o estado de Washington aprovou um projeto de lei que estabelece o primeiro imposto de renda estadual, mirando especificamente os mais ricos. A medida, que visa arrecadar bilhões anualmente, representa uma mudança significativa na estrutura tributária do estado, que até então se baseava em impostos sobre vendas e empresas.
A proposta estabelece uma alíquota de 9,9% sobre a renda pessoal que ultrapassa US$ 1 milhão por ano. Estima-se que o novo imposto afete cerca de 21 mil contribuintes, o que representa menos de 1% da população. A expectativa é que a iniciativa gere entre US$ 3,5 bilhões e US$ 4 bilhões em arrecadação anual, a partir de 2029.
A aprovação ocorreu em meio a um contexto de crescente desigualdade econômica e um déficit orçamentário projetado entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões para os próximos quatro anos. A deputada estadual Brianna Thomas, democrata e defensora da medida, ressaltou que a economia de Washington, hoje lar de gigantes tecnológicos como Amazon e Microsoft, superou o antigo sistema tributário. Conforme informação divulgada pela Fortune, Thomas afirmou que o estado ainda opera com um código tributário baseado em uma economia agrícola, enquanto produz tecnologia de ponta.
Um imposto histórico em um estado sem imposto de renda
Washington era um dos nove estados americanos que não possuíam imposto de renda. Sua estrutura tributária, vigente desde o início do século XX, priorizava impostos sobre vendas e corporativos. A última tentativa de implementar um imposto de renda ocorreu em 1932, mas foi derrubada pela Suprema Corte estadual no ano seguinte. Em 2010, outra tentativa não avançou.
A deputada Thomas destacou que a estrutura atual é uma das mais regressivas dos Estados Unidos. Segundo o Institute on Taxation and Economic Policy, os 1% mais ricos em Washington pagam apenas 4,1% de sua renda em impostos estaduais e locais, enquanto os 20% mais pobres contribuem com 13,8%. “Temos mais milionários e bilionários do que nunca, e eles pagam, na prática, uma alíquota de cerca de 4%”, disse Thomas, contrastando com os 11% pagos por trabalhadores e 14% pelos de menor renda.
Reações e o êxodo de bilionários
A aprovação do imposto não ocorreu sem controvérsias. O debate na Câmara foi o mais longo da história de Washington, com 25 horas de discussões e a apresentação de 81 emendas. O Senado estadual aprovou a medida por 27 votos a 21. O projeto agora segue para a sanção do governador Bob Ferguson.
Entretanto, a medida já gera repercussão. Logo após a aprovação, o bilionário Howard Schultz, fundador da Starbucks, anunciou sua mudança de Seattle para Miami, onde adquiriu uma cobertura de US$ 44 milhões. Embora não tenha confirmado a ligação direta com o imposto, Schultz expressou o desejo de que Washington continue sendo um local próspero para negócios.
Essa saída não é inédita. Jeff Bezos, fundador da Amazon, mudou-se para Miami em 2023, o que, segundo estimativas, custou ao estado de Washington cerca de US$ 954 milhões em arrecadação tributária apenas em 2024. A venda de ações da Amazon por Bezos da Flórida economizou aproximadamente US$ 610 milhões em impostos estaduais por ele não ser mais residente de Washington.
Um movimento nacional contra a concentração de riqueza
A iniciativa de Washington se insere em um movimento mais amplo nos Estados Unidos para tributar grandes fortunas. O senador Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna apresentaram o “Make Billionaires Pay Their Fair Share Act”, que propõe um imposto anual de 5% sobre a riqueza de americanos com patrimônio superior a US$ 1 bilhão. A arrecadação estimada é de US$ 4,4 trilhões em dez anos.
Na Califórnia, uma proposta de plebiscito, a Billionaire Tax Act de 2026, visa um imposto único de 5% sobre residentes com patrimônio acima de US$ 1 bilhão, com expectativa de arrecadar cerca de US$ 100 bilhões, destinados a saúde e assistência alimentar.
A deputada Brianna Thomas, em resposta à possível saída de Schultz, declarou que espera que Washington seja vista como mais do que uma simples planilha ou conta, mas sim como uma comunidade pela qual se importa. Para ela, a questão é de política pública, e não apenas de matemática, reafirmando a importância de garantir que os mais ricos contribuam de forma justa.