Xi Jinping enfrenta a pior crise de sua liderança: a desconfiança na cúpula militar chinesa.
O líder da China, Xi Jinping, iniciou uma ofensiva de expurgos contra a elite militar, um movimento que expôs uma profunda crise de confiança. A redução drástica no número de generais presentes em reuniões oficiais é um reflexo dessa convulsão interna, comparável aos turbulentos períodos sob Mao Tsé-tung.
A mensagem de Xi aos oficiais remanescentes foi clara: a deslealdade ao partido não será tolerada. A expressão “coração dividido”, usada pelo líder, carrega um peso histórico e simbólico significativo, indicando um alerta severo contra qualquer sinal de desvio de conduta ou lealdade questionável.
Essa purga em larga escala ameaça um dos projetos mais ambiciosos de Xi Jinping: a transformação das Forças Armadas chinesas em uma potência militar global. Tudo isso ocorre em um cenário de crescente rivalidade com os Estados Unidos, conforme divulgado pelo The New York Times.
A “faxina” que abala os alicerces militares da China
O que parecia ser uma campanha pontual contra a corrupção se transformou em uma ampla demissão de dezenas de oficiais de alto escalão. O ápice dessa “faxina” foi a queda de Zhang Youxia, considerado um dos homens de confiança de Xi e principal comandante militar do país. A situação se agravou com a condenação de dois ex-ministros da Defesa à prisão perpétua.
“Por que ele está destruindo aquilo que ele mesmo construiu?”, questiona Daniel Mattingly, professor associado de Yale e especialista em política e assuntos militares da China. A atitude de Xi Jinping demonstra uma mudança profunda em sua abordagem de liderança, gerando incertezas sobre o futuro das Forças Armadas.
A corrupção é um problema real, mas analistas apontam que Xi enxerga em qualquer sinal de desobediência uma ameaça direta ao seu poder. A modernização militar e a garantia de lealdade absoluta parecem estar em choque, levando à substituição de generais experientes por figuras focadas na disciplina política.
A busca por lealdade absoluta: a nova era militar sob Xi
Desde o início de seu governo, Xi Jinping demonstrou uma determinação em consolidar seu controle sobre os militares, evitando o destino de seu antecessor, Hu Jintao, que teve sua autoridade questionada pela cúpula militar. A reunião em Gutian, em 2014, foi um marco nesse sentido, reforçando o princípio de que “é o partido que comanda as armas”.
Xi implementou o “sistema de responsabilidade do presidente”, fortalecendo seu acesso direto ao comando militar. Ele enfatizou a importância de escolher “as pessoas certas” para compor a hierarquia, delegando a si mesmo a responsabilidade pessoal de avaliar e promover oficiais.
A reestruturação incluiu a criação de novos comandos teatrais e a dissolução de departamentos considerados entraves ao controle efetivo. O objetivo era dar à China a capacidade de projetar poder no exterior, garantindo ao mesmo tempo a fidelidade inabalável ao partido.
Zhang Youxia: o general de confiança que caiu em desgraça
O general Zhang Youxia, figura chave na modernização militar e filho de um general revolucionário, era visto como um dos pilares do plano de Xi. Sua experiência de combate e origem familiar o tornavam um nome forte para liderar as Forças Armadas em sua nova fase.
Em 2018, Xi Jinping considerou a reforma militar um “sucesso histórico”. A manutenção de Zhang na Comissã Militar Central em 2022, mesmo aos 72 anos, indicava a confiança do líder em sua capacidade de alcançar as metas militares até 2027.
No entanto, a aparente estabilidade ruiu em 2023 com a troca abrupta do comandante da Força de Foguetes e seu vice, sem explicações oficiais. O ministro da Defesa também foi demitido, intensificando a sensação de turbulência na cúpula militar.
O inquisidor que ascende: Zhang Shengmin e a nova ordem militar
A campanha de expurgos ganhou força com a ascensão do general Zhang Shengmin, encarregado de conduzir as investigações. Sua carreira, marcada pela pouca vivência em combate e foco na lealdade ao partido, reflete a prioridade de Xi em controle ideológico.
A decisão de promover Zhang Shengmin a vice-presidente da Comissã Militar Central foi o estopim para a queda de Zhang Youxia. A oposição a essa nomeação, argumentando que reforçaria a imagem de um exército mais preocupado com política do que com capacidade de combate, selou o destino de Zhang Youxia.
O jornal oficial dos militares acusou ambos de terem “pisoteado gravemente” o sistema de responsabilidade do presidente, o mesmo sistema criado por Xi para consolidar seu controle. A nova campanha de “retificação ideológica” e “forja revolucionária” sinaliza que a doutrinação e a reforço da lealdade ao partido continuam sendo as prioridades máximas de Xi Jinping.