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7 em cada 10 pessoas no mundo acreditam em mitos médicos desmentidos: O que diz o Relatório Edelman 2026?

Nova pesquisa global expõe a disseminação de mitos médicos e a queda na confiança em informações de saúde.

Uma teoria antiga sobre desinformação em saúde, que a via como um problema restrito a poucos grupos, foi desmentida por um abrangente levantamento global. O Relatório Especial do Barômetro de Confiança Edelman 2026, com dados de mais de 16.000 pessoas em 16 países, aponta que sete em cada dez indivíduos acreditam em pelo menos uma de seis afirmações de saúde amplamente desmentidas.

Esses dados alarmantes, divulgados pela Edelman, revelam um cenário complexo onde a desinformação médica transcende barreiras demográficas, políticas e geográficas. A pesquisa, que acompanha a evolução desses dados desde 2021, indica que medos e a erosão do tecido social contribuem para essa realidade preocupante.

A pesquisa do Edelman Trust Institute, citada pela Fortune, destaca que a suposição de que apenas grupos específicos duvidam da ciência médica não é verdadeira. A realidade é que essas crenças se espalham por toda a população, impactando a forma como as pessoas buscam e confiam em informações sobre saúde.

Mitos médicos populares que desafiam a ciência

O levantamento identificou seis afirmações de saúde falsas em que uma parcela significativa da população mundial deposita crença. Entre elas, destacam-se a ideia de que a proteína animal é mais saudável (32%), que o flúor na água é prejudicial ou inútil (32%), e que o risco das vacinas infantis supera os benefícios (31%).

Outras crenças disseminadas incluem a afirmação de que o leite cru é mais saudável que o pasteurizado (28%), que o uso de paracetamol durante a gravidez causa autismo (25%), e que as vacinas são utilizadas para controle populacional (25%). Estes números revelam a persistência de mitos médicos que já foram amplamente desmentidos pela comunidade científica.

A desinformação médica transcende barreiras sociais e políticas

De forma surpreendente, a pesquisa do Edelman desmonta a ideia de que a desinformação médica se restringe a grupos com menor escolaridade ou a perfis específicos. Entre pessoas com diploma universitário, 69% sustentam ao menos uma dessas crenças, um índice muito próximo dos 70% entre aqueles sem diploma.

O espectro político também não é um divisor claro. Enquanto 78% dos entrevistados de direita acreditam em pelo menos uma das afirmações falsas, o índice entre os de esquerda é de 64%. A desinformação médica, portanto, se mostra um fenômeno transversal, afetando indivíduos de diferentes origens e convicções.

O padrão se mantém em diversas faixas etárias e, notavelmente, é mais acentuado em países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos. Os Estados Unidos, frequentemente associados ao epicentro da desinformação em saúde, nem sequer figuram entre os dez primeiros países na análise.

Erosão social e o tribalismo como motores da desinformação

Dave Bersoff, vice-presidente executivo do Edelman Trust Institute, descreve um processo de erosão social que alimenta essa tendência. Medos cronicamente ignorados ou mal abordados levam à polarização, paralisia, ressentimento e, por fim, ao isolamento social.

Esse endurecimento leva a um fortalecimento do tribalismo, onde a confiança em quem pensa diferente se torna cada vez mais difícil. A crença de que pessoas de fora do próprio grupo estão tentando tirar vantagens ou que seus ganhos vêm às custas alheias fomenta uma interação negativa e hostil com o mundo.

Essa dinâmica explica, em grande parte, a dificuldade em dialogar e encontrar consensos sobre questões de saúde. A polarização e o tribalismo criam barreiras que dificultam a disseminação de informações baseadas em evidências científicas e a adoção de práticas de saúde recomendadas.

Queda na confiança e o papel da inteligência artificial na saúde

A crise da desinformação agrava outra emergência: a queda acentuada na confiança das pessoas em sua própria capacidade de tomar decisões sobre saúde. A confiança pública em encontrar informações confiáveis e tomar decisões informadas caiu 10 pontos percentuais em um ano, para apenas 51% globalmente.

Paralelamente, a confiança na mídia para cobrir temas de saúde com precisão permanece 11 pontos abaixo do nível pré-pandemia, em apenas 46%. As pessoas se sentem sobrecarregadas de informação, com dificuldade em diferenciar fontes confiáveis.

Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) ganha espaço. 35% dos entrevistados já utilizam IA para gerenciar sua saúde, e 64% acreditam que uma pessoa fluente em IA pode realizar tarefas médicas tão bem quanto um médico treinado. Isso inclui determinar tratamentos e diagnosticar doenças.

A migração para a IA é, em parte, uma resposta a um sistema de saúde que muitos sentem que falhou com eles. A confiança no sistema de saúde dos EUA, por exemplo, despencou de 71,5% em 2020 para 40,1% em 2024. Dificuldades de acesso e altos custos agravaram essa percepção.

As pessoas se sentem julgadas por seus médicos e buscam refúgio em algoritmos, que podem ser percebidos como menos tendenciosos e mais empáticos. Entre os que usam IA para saúde, a maioria a utiliza para obter respostas imediatas e segundas opiniões sobre diagnósticos.

Um fio de esperança: a necessidade de diálogo e parceria

Apesar do cenário desafiador, a pesquisa oferece um otimismo moderado. Médicos pessoais continuam sendo a fonte mais confiável em saúde em 16 mercados analisados. A chave para o futuro, segundo a equipe da Edelman, é abandonar velhos hábitos de comunicação unilateral.

Cientistas e profissionais de saúde precisam ir além do “o quê” e explicar o “porquê” e o “como”. A recomendação é menos transmissão de autoridade e mais diálogo, construindo confiança de baixo para cima. As pessoas não querem um guru, mas um guia em sua jornada de saúde.