Aleksei Kolosovsky, um ex-motorista de táxi de 42 anos, emergiu como peça central de uma campanha de sabotagem atribuída a serviços russos, segundo autoridades europeias.
Investigadores dizem que ele recrutou criminosos, hackers e jovens para fabricar e distribuir artefatos incendiários em vários países, usando estações de trem e armários de encomenda como pontos logísticos.
Os ataques envolveram incêndios que destruíram mais de 1.000 pequenos negócios nos arredores de Varsóvia e uma tentativa de explodir cargas aéreas, entre outros incidentes, conforme apuração citada abaixo,
conforme informações do The New York Times
Quem é Kolosovsky e como ele foi recrutado
Na superfície, nada do perfil público de Kolosovsky indica um operador de sabotagem. Ele parece viver modestamente, frequentemente endividado, e suas redes sociais mostram fotos simples, incluindo uma postagem de aniversário em 15 de dezembro de 2020.
Autoridades e pesquisadores, porém, traçaram conexões que o ligam a grupos criminosos, a venda de identidades falsas e a um coletivo de hackers chamado KillNet. Pesquisas associaram seus números de telefone a canais do Telegram usados para contrabando e atividades ilícitas.
Segundo as apurações, Kolosovsky esteve associado a um ladrão de carros conhecido como Daniil Oleynik, apelidado Wasp Killer, e foi detido brevemente na Rússia em 2021, período em que, de acordo com autoridades, pode ter sido recrutado por serviços de inteligência que vasculham prisões por potenciais ativos.
Como as operações eram montadas
Da sua base em Krasnodar, no sul da Rússia, Kolosovsky teria coordenado o envio de detonadores e materiais para fabricação de bombas para armários de encomendas em estações de trem, de onde recrutas retiravam os pacotes sem entender totalmente os planos.
Em um dos casos, um adolescente ucraniano, Daniil Bardadim, foi recrutado via Telegram, sob variações do nome “Warrior”, e colocado para plantar um artefato incendiário na seção de colchões de uma loja da IKEA em Vilnius.
Bardadim colocou o dispositivo em 8 de maio de 2024, e ele foi acionado na madrugada de 9 de maio, intencionalmente programado para o dia das comemorações russas da vitória, segundo promotores.
Quando preso, ele levava itens para fabricar bombas, incluindo um carrinho de controle remoto, dois vibradores e seis celulares, e havia sido pago com um BMW antigo pelo ataque em Vilnius, de acordo com documentos judiciais.
Escala e alcance dos ataques
Mais ou menos na mesma época, outro grupo ligado à rede iniciou um incêndio nos arredores de Varsóvia que destruiu mais de 1.000 pequenos negócios. O primeiro-ministro polonês disse que as autoridades sabiam “com certeza” que serviços de inteligência russos eram responsáveis.
Em 20 de julho de 2024, um contêiner em um avião de carga da DHL em Leipzig pegou fogo. Em menos de 24 horas houve um incêndio em um caminhão na Polônia e outro em um centro de remessas da DHL em Birmingham, na Inglaterra.
Investigações envolvendo nove países concluíram que o GRU esteve por trás dos planos para colocar artefatos incendiários em aviões de carga na Grã-Bretanha, Alemanha e Polônia, e que a rede operou “obedecendo a uma conspiração muito rigorosa“, segundo promotores na Lituânia.
Conexões com o GRU e o contexto estratégico
Autoridades dizem que Kolosovsky não é um oficial treinado, mas um prestador de serviços que trabalha próximo de agentes de inteligência, muitos do GRU, que assumiram maior protagonismo após a invasão da Ucrânia.
Desde 2022, a expulsão de diplomatas russos reduziu a atuação encoberta tradicional, deixando o Kremlin mais dependente de operadores heterogêneos, incluindo criminosos e refugiados, capazes de circular pela Europa.
O chefe da inteligência britânica disse que “Estamos agora operando em um espaço entre a paz e a guerra“, caracterizando a ação russa como testes na “zona cinzenta” com táticas abaixo do limiar da guerra.
Ex-agentes e analistas apontam que, historicamente, o GRU praticou sabotagem, e que desde 2022 operações do grupo, incluindo ações atribuídas à Unidade 29155, ampliaram-se em escopo e violência.
Consequências e respostas internacionais
As tentativas de colocar bombas em cargas aéreas alarmaram governos ocidentais pela possibilidade de derrubar aviões em voo. Se o cargueiro em Leipzig não tivesse sido atrasado, promotores afirmam que o artefato provavelmente explodiria em pleno ar.
As reações incluíram fechamentos de consulados russos, expulsões de diplomatas e contatos de alto nível entre Washington e Moscou, com pedidos para que tais ações fossem interrompidas imediatamente.
Analistas alertam que a Rússia, segundo um pesquisador ouvido, levou “assassinato e sabotagem patrocinados pelo Estado a um novo patamar“, usando essa pauta para buscar objetivos estratégicos.
O Kremlin nega repetidamente envolvimento em sabotagem, e Kolosovsky não respondeu a pedidos de comentário, segundo os relatórios. Investigações judiciais e depoimentos de mais de uma dezena de autoridades de segurança de cinco países europeus, sustentam, porém, o papel central que lhe é atribuído.
Os detalhes dos métodos, como o uso do material incendiário de grau militar chamado termite escondido dentro de almofadas de massagem com temporizadores eletrônicos, mostram a complexidade e o risco das operações que autoridades europeias procuram desarticular.
As informações deste texto foram compiladas a partir de apuração publicada pelo The New York Times.