A ambição que impulsionou sua carreira pode estar te levando à exaustão. Aprenda a identificar e lidar com o burnout de alta performance.
No início da carreira, a dedicação era um trunfo. Voluntariá-lo-se para projetos desafiadores, estender o expediente e entregar resultados notáveis eram a fórmula para o sucesso. Essa postura permitiu subir na hierarquia, construir uma reputação de solucionador de problemas e alcançar posições de liderança. Contudo, a ambição que antes energizava agora pode se transformar em uma fonte de exaustão, com os padrões estabelecidos parecendo uma esteira da qual é difícil descer.
Esse cenário é comum entre profissionais de alto desempenho, segundo Mary Anderson, psicóloga clínica e autora de “The Happy High Achiever”. Em sua prática, ela observa repetidamente profissionais bem-sucedidos no auge da carreira, que já cumpriram todas as metas, mas se sentem vazios. Eles não desfrutam de sua própria excelência, mas sim se encontram sobrecarregados, exaustos e com níveis elevados de cortisol, como aponta a especialista.
Para muitos, esse é o momento em que uma crise se instala. Amy Wrzesniewski, psicóloga organizacional e professora da Wharton School, explica que quando o sucesso sempre dependeu de esforço e energia imensos, a incapacidade de sustentar esse ritmo torna-se assustadora. Em vez de autoculpa, a sugestão é direcionar essa energia para entender as razões da mudança, conforme divulgado pela Harvard Business Review.
Motor Desgastado ou Combustível Mudou: Entendendo a Causa da Exaustão
A queda na motivação e energia pode ter duas origens principais: um problema no “motor” (seu corpo) ou uma mudança no “combustível” (sua motivação intrínseca). Um “motor” desgastado refere-se ao envelhecimento natural do corpo, onde a recuperação leva mais tempo e a energia não é a mesma de antes. Como explica Anderson, a capacidade de funcionar com pouco sono e alimentação rápida diminui com o tempo, e os limites impostos pelo corpo passam a cobrar seu preço.
Por outro lado, um problema de “combustível” indica que as peças do motor estão bem, mas o que o alimenta mudou. A capacidade de gerar entusiasmo que antes era natural se esvai. Wrzesniewski descreve essa situação como uma perda de “faísca”, onde a pessoa começa a perceber que seus sentimentos em relação ao trabalho se alteraram significativamente.
Identificar a causa é crucial, pois as soluções diferem. Um motor desgastado pode exigir mais atenção à saúde física e recuperação, enquanto um problema de combustível demanda uma reavaliação do propósito e significado do trabalho.
Redefinindo o Sucesso: Da Conquista à Vocação
A forma como encaramos o trabalho impacta diretamente nossa satisfação. Wrzesniewski aponta que muitos veem o trabalho como um “emprego” (troca financeira) ou “carreira” (foco em progressão). No entanto, aqueles que o encaram como uma “vocação” — algo intrinsecamente significativo e gratificante — relatam maior satisfação. Para quem foi movido por conquistas e avanço constante, essa orientação perde força quando se atinge um platô.
Nesses momentos, o foco muda para o significado: “Como me sinto em relação a este trabalho? Ele é significativo?”. Quem enxerga o trabalho como vocação é menos vulnerável a esses sentimentos, pois o vínculo com o trabalho se sustenta no prazer, no desafio ou na contribuição para algo maior. A ambição não precisa ser abandonada, mas pode ser redirecionada para o trabalho em si, e não apenas para a próxima promoção.
Desconectando o Valor Pessoal de Métricas Externas
É comum que, em algum momento, a definição de sucesso seja terceirizada, absorvendo padrões setoriais e métricas empresariais. Anderson alerta que vincular o valor interno à validação externa leva à ansiedade crônica. Frequentemente, internalizamos expectativas irreais de clientes e chefes, cobrando de nós mesmos um nível superior ao exigido.
Anderson ressalta a importância de não confundir excelência com perfeição. Embora as conquistas sejam importantes, é fundamental lembrar que “você não é sua conta bancária. Você não é seus prêmios”. O valor pessoal não deveria flutuar com resultados trimestrais. É essencial definir o sucesso em seus próprios termos, separando sua identidade do desempenho profissional.
Reconfiguração do Trabalho: Alinhando Energia e Propósito
Independentemente da causa da exaustão, é vital identificar o que realmente merece sua energia. Pode ser a mentoria de colegas, o pensamento estratégico, o contato com clientes ou outras atividades que geram satisfação. Pesquisadores chamam essa prática de “reconfiguração do trabalho”, remodelando suas tarefas para torná-las mais envolventes e focadas no que lhe traz significado.
Wrzesniewski sugere sentar e analisar as componentes do seu trabalho, identificando o que pode ser delegado e o que pode ser aproximado de tarefas que te alimentam. Muitas vezes, há mais autonomia do que se imagina. A transição para funções de mentoria, aconselhamento ou projetos focados no desenvolvimento de outras pessoas é uma mudança natural nessa fase da carreira.
Anderson define isso como “gestão de energia”. Para continuar performando em alto nível, é preciso proteger sua energia e ser estratégico sobre onde a utiliza, focando no que realmente importa. Essa gestão é essencial para a sustentabilidade da alta performance a longo prazo.
O Momento de Explorar o Próximo Capítulo
Em alguns casos, a resposta sobre o que fazer a seguir surge de forma clara: pode ser hora de mudar de emprego. Em outros, ajustes como mais descanso, limites mais definidos ou pequenas alterações na rotina de trabalho podem ser suficientes. No entanto, se o que te energiza representa apenas uma pequena fração do seu dia e o restante te drena, a situação pode não ser sustentável.
É nesse ponto que a exploração do que vem a seguir se torna necessária. A mudança não implica necessariamente abandonar sua especialidade. Consultoria, participação em conselhos e ensino são caminhos que permitem continuar envolvido em atividades significativas, mas de uma forma diferente. Essa transição pode ser a primeira vez em que você se pergunta o que realmente quer, e não o que acha que deveria querer.
Anderson conclui que, após construir uma reputação atendendo a altas expectativas, é o momento de você decidir o que significa excelência para si mesmo. A autodefininição do sucesso é a chave para reencontrar o propósito e a energia na carreira.