Batalha dos Bancões: Itaú e Bradesco se destacam no 1º Tri, mas qual ação investir para dividendos e valorização?
A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 trouxe um cenário de contrastes para os grandes bancos brasileiros. Enquanto alguns demonstraram resiliência em meio a juros altos, outros apresentaram quedas significativas na lucratividade, acendendo um sinal de alerta no mercado.
Diante deste quadro, a escolha de onde investir exige do acionista uma análise mais apurada. A dinâmica entre risco e retorno mudou, e a estratégia a ser adotada – seja foco em dividendos ou na valorização das ações – aponta para caminhos distintos dentro do próprio setor bancário.
Veja a seguir como cada banco se saiu e o que os resultados significam para a sua decisão de investimento, conforme apurado pelo InfoMoney.
Itaú: O Destaque de Qualidade e Dividendos Consistentes
O Itaú Unibanco se consolidou, de forma unânime entre os analistas, como o grande destaque positivo do trimestre. A instituição reportou um lucro líquido recorrente de R$ 12,3 bilhões no 1T26, um aumento de 10,4% em relação ao ano anterior. Seu Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) atingiu expressivos 26,4% na operação brasileira, métrica fundamental para avaliar a eficiência bancária.
Para o investidor que busca qualidade e dividendos consistentes, o Itaú é a principal recomendação. Fernando Benavenuto, sócio da Anvex Capital, classifica a operação do banco como um “relógio suíço defensivo para o setor”, elogiando a gestão de risco e a execução.
Hayson Silva, analista da Nova Futura Investimentos, concorda e define ITUB4 como “qualidade já provada”. Pedro Galdi, analista do AGF, ressalta que a eficiência e a evolução das contas estruturais do Itaú proporcionam “maior potencial para distribuição de proventos” em carteiras previdenciárias.
Bradesco: A Surpresa Positiva com Potencial de Valorização
Se o Itaú entregou a constância esperada, o Bradesco foi a grande surpresa positiva do período. O banco registrou um lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões, um salto de 16,1% na base anual, e um ROE de 15,8%. Este foi o nono trimestre consecutivo de expansão nos lucros, confirmando que o processo de reestruturação da instituição está no caminho certo.
Hayson Silva destaca que, para um banco que vinha sendo desacreditado, esse resultado “tem peso relevante na reconstrução de credibilidade”. No que diz respeito à tese de investimento, o Bradesco é a escolha número um para quem foca em ganho de capital.
Cristiano Luersen, especialista em investimentos e sócio da Wiser Investimentos, explica que a ação negocia próxima ao valor patrimonial, um múltiplo historicamente baixo que pode não se sustentar à medida que a rentabilidade se normalize. “O Bradesco é o papel com a relação risco-retorno mais assimétrica neste momento”, avalia o especialista, alertando que a tese exige paciência (horizonte de 24 a 36 meses), mas é “onde o potencial de valorização está mais bem remunerado”.
Banco do Brasil e Santander: As Decepções do Trimestre
Na ponta oposta, o Banco do Brasil (BB) foi classificado como a maior decepção da temporada. O banco estatal reportou uma contração relevante, com o lucro líquido ajustado recuando para R$ 3,4 bilhões – uma queda superior a 50% na base anual – e o ROE despencando para 7,3%.
O agronegócio foi o principal vilão deste resultado, com a inadimplência rural saltando de 2,76% para 6,22%, elevando o custo de crédito do banco em 86%. Pedro Galdi resume que o resultado fraco reflete a “necessidade de ampliar provisões para perdas” diante da crise no agronegócio.
A revisão para baixo do guidance de lucro para 2026, que caiu para a faixa de R$ 18 a R$ 22 bilhões, minou a confiança do mercado. Analistas recomendam distância do papel neste momento, pois “o horizonte de normalização do problema ficou materialmente mais longo”, alerta Luersen. O ciclo de crédito para o banco público “está consideravelmente mais apertado”, reforça Benavenuto.
O Santander também amargou a lista das decepções do 1T26, ainda que em menor gravidade que o BB. Com um lucro líquido gerencial de R$ 3,8 bilhões e um ROE de 16%, o banco ficou abaixo das expectativas. A carteira de crédito expandiu 3,4% no ano, refletindo uma postura conservadora diante do aumento da inadimplência acima de 90 dias, que passou de 2,8% para 3,3%.
Para Cristiano Luersen, o quadro sinaliza uma “deterioração de qualidade em várias faixas de crédito” e aponta para uma desaceleração do crescimento. Hayson Silva explica que a instituição possui uma “sensibilidade estrutural negativa ao ciclo de juro alto”, fator que fica escancarado com a Selic em dois dígitos. “Não é um problema de execução, é de modelo. E, enquanto os juros não caírem de forma mais consistente, essa pressão não desaparece”, diz Silva, que também recomenda ficar de fora do papel por enquanto.
Qual a Melhor Opção para Dividendos?
Para grande parte dos investidores da Bolsa, a principal atratividade do setor bancário tradicional está na distribuição de proventos. Contudo, o cenário desafiador deste ano exige que a caça aos dividendos vá além da simples leitura do percentual de retorno final.
A perspectiva atual aponta para um empate técnico no topo do ranking de pagamentos entre os pares privados, mas com origens distintas. “Para 2026, Itaú, Bradesco e Santander devem entregar yields projetados próximos, na faixa de 7% a 8%”, estima Hayson Silva. O especialista alerta, porém, que a grande armadilha está em olhar apenas para a taxa, pois “a diferença entre eles não está no tamanho do dividendo, mas na qualidade do resultado por trás dele”.
Com o “lucro mais sólido e previsível do setor”, o Itaú é a opção mais segura para os focados em renda. O Bradesco, por sua vez, “paga com um resultado em recuperação, mas crescendo”. Já o caso do Santander exige cautela redobrada do investidor de renda passiva, pois o banco “paga com um resultado mais pressionado e uma cotação que caiu bastante no ano”, o que infla artificialmente o dividend yield.
O Banco do Brasil “é o único que destoa do grupo, com yield projetado entre 4,5% e 5%, reflexo do lucro comprimido e do payout reduzido para 30% em 2026”, conclui o analista.
Vale a Pena Investir em Bancos Agora?
Apesar dos sobressaltos com BB e Santander, os analistas concordam que ainda vale a pena ter exposição ao setor bancário, desde que o investidor seja extremamente seletivo e alinhe suas escolhas à sua estratégia pessoal.
Para uma carteira com foco em dividendos, a sustentabilidade da distribuição exige instituições maduras, com geração de capital robusta e menor necessidade de reinvestimentos, o que aponta diretamente para o Itaú. Para ganho de capital via valorização, a aposta é o Bradesco.
Contudo, é necessário cautela com o ambiente macroeconômico. Pedro Galdi alerta para o movimento atual de saída de capital estrangeiro da Bolsa, o que exige prudência para ganhos de capital, embora crie oportunidades para estratégias de dividendos.
Como alerta Benavenuto, o setor bancário exige atenção a indicadores além do lucro contábil: “bancos são empresas de capital intensivo, e o nível de provisionamento, a qualidade da carteira e o índice de cobertura dizem mais sobre a saúde da instituição do que o lucro líquido divulgado”.