Calotes no Crédito Privado: O Que Mudou e Por Que o Impacto é Menor Agora
Apesar de uma série de casos de inadimplência que abalaram o mercado de crédito privado brasileiro nos últimos meses, o estrago financeiro atual é significativamente menor se comparado ao ciclo anterior. Empresas como Ambipar, Raízen e GPA enfrentaram dificuldades, mas o impacto em índices importantes de dívida foi contido.
Para se ter uma dimensão, os calotes recentes de grandes companhias representaram uma queda de apenas 0,6% no IDEX, um índice que acompanha as principais emissoras de dívida do país, desde setembro de 2025. Esse número contrasta fortemente com o ciclo anterior.
Na comparação, apenas dois casos de grande repercussão, Americanas e Light, derrubaram o IDEX em 3,69%. Isso significa que o impacto atual é cerca de seis vezes menor, mesmo com um número maior de empresas envolvidas em situações de calote. A informação foi apresentada por Alexandre Muller, gestor de crédito privado da JGP, no podcast Carteiros do Condado, da XP. Conforme divulgado pelo podcast, Muller discutiu um estudo inédito da casa sobre o estágio atual do ciclo de crédito brasileiro.
Por Que os Calotes Atuais Têm Menor Peso no Mercado Financeiro
Alexandre Muller, da JGP, destacou que a forma como a imprensa tem noticiado os recordes de pedidos de recuperação judicial pode ser enganosa. Ele critica a ênfase no número absoluto de pedidos, sem ponderar pelo tamanho da dívida envolvida. Para ele, essa métrica acaba equiparando pequenas empresas com dívidas modestas a grandes corporações, distorcendo a real dimensão do problema.
“Esse dado é um horror. Esse dado não deveria ser utilizado, porque ele não qualifica o estoque de dívida envolvido”, afirmou Muller. Ele defende que a estatística mais precisa para avaliar a saúde do mercado é a relação entre o estoque de dívida em atraso e o estoque total de dívida. Esse indicador, acompanhado de perto pelo Banco Central, tem se mantido estável em torno de 3% desde 2024, demonstrando uma resiliência maior do mercado.
Fundos de Crédito Privado: Resgates em Níveis Controlados
O estudo da JGP também analisou o comportamento dos resgates em fundos com a maior parte de suas carteiras alocadas em crédito privado. A base desses fundos praticamente dobrou em três anos, passando de cerca de 1.100 fundos e R$ 660 bilhões em 2023 para aproximadamente 2.500 fundos e R$ 1,43 trilhão atualmente. Apesar desse crescimento expressivo, os resgates neste ciclo representam apenas 1,5% do patrimônio total.
Esse percentual é inferior aos 2% observados entre 2022 e 2023. Para Muller, essa movimentação é vista como um ajuste natural ao fim de um ciclo de juros altos, sem indícios de pânico ou movimentos bruscos que possam desestabilizar o mercado. Davi Fontele, coapresentador do podcast, ressaltou a importância de analisar a composição desses resgates e o fluxo natural das carteiras antes de tirar conclusões precipitadas.
Métricas Chave e a Estabilidade do Mercado de Dívida
A estabilidade observada no mercado de crédito privado é reforçada por outros fatores. Com um prazo médio de cerca de três anos no índice IDEX, os fundos recebem mensalmente um volume considerável em amortizações e pagamentos de juros. Esse fluxo de caixa, em torno de 2,78% do patrimônio, geralmente é suficiente para cobrir as saídas de recursos sem a necessidade de vender ativos a preços desfavoráveis.
A abertura média dos prêmios de risco neste ciclo também foi mais contida, registrando 44 pontos-base. Isso se compara aos 91 pontos-base observados entre 2022 e 2023, indicando que os investidores estão exigindo uma remuneração de risco menor em relação ao cenário anterior. Essa menor volatilidade nos prêmios de risco reflete uma maior confiança e uma percepção de risco mais equilibrada no mercado de crédito privado atual.