Especialistas criticam campanhas que gastam energia com eleitores já decididos, ignorando o grupo que pode definir a eleição.
A polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consolidou eleitorados fiéis, mas, segundo especialistas, as campanhas ainda dedicam energia excessiva a convencer quem já fez sua escolha. O verdadeiro desafio, dizem, está em dialogar com um grupo menor de brasileiros que continua disposto a mudar de voto.
Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, aponta que um dos principais erros da disputa presidencial é tratar os chamados eleitores independentes como um bloco homogêneo. Na prática, esse grupo reúne perfis muito diferentes e exige estratégias específicas.
“Existe um cara que não gosta muito de nenhum dos dois. Existe um cara que votou no Bolsonaro e está decepcionado. Existe outro que votou no Lula e também está frustrado. É bem diferente de achar que os dois estão disputando uma mesma massa de eleitores independentes”, afirmou Meirelles durante o programa Mapa de Risco, do InfoMoney.
O Perfil dos Eleitores que Ainda Podem Ser Convencidos
Na avaliação de Meirelles, compreender essas diferenças é mais importante do que tentar ampliar discursos voltados às bases já consolidadas. Isso porque boa parte do eleitorado de Lula e de Bolsonaro dificilmente mudará de posição até as eleições. O erro é imaginar que existe um eleitor médio esperando para escolher entre um e outro.
“Na verdade, são grupos distintos, com expectativas diferentes e que respondem a estímulos diferentes”, disse o especialista. Ele também chama atenção para o fato de que o tempo do eleitor não é o mesmo da imprensa, do mercado financeiro ou das campanhas. A percepção do eleitor médio sobre crises políticas ou escândalos demora mais para mudar.
A Importância do Engajamento em Eleições Acirradas
Victor Scalet, analista de política da XP, concorda que o foco das campanhas precisa estar no eleitor que ainda pode ser convencido, especialmente em uma eleição que tende a ser decidida por uma margem estreita. “As evidências que a gente está encontrando mostram que o engajamento acaba sendo mais importante do que o efeito demográfico.”
Em uma eleição apertada, esse pequeno grupo de eleitores independentes pode fazer toda a diferença. Para os analistas, isso explica por que os próximos meses serão menos uma disputa para mobilizar militâncias e mais um esforço para identificar quais segmentos ainda permanecem abertos à persuasão. O verdadeiro jogo eleitoral está em capturar a atenção desses eleitores voláteis.
Diferença de Ritmo entre Campanhas e o Eleitor Comum
Essa diferença de ritmo faz com que campanhas frequentemente reajam aos acontecimentos do noticiário sem que eles tenham, naquele momento, produzido efeito relevante sobre o eleitor. O cidadão comum está mais preocupado com o seu dia a dia, suas finanças e seu bem-estar, e as questões políticas acabam tendo um impacto mais tardio em sua decisão.
Portanto, enquanto a imprensa e o mercado reagem rapidamente a cada nova notícia, o eleitor médio processa essas informações em uma velocidade distinta. As campanhas que entenderem e respeitarem esse tempo e essa dinâmica terão uma vantagem estratégica crucial.
Estratégias Futuras: Foco nos Indecisos
O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, ressalta a necessidade de uma mudança de estratégia. Em vez de reforçar mensagens para quem já está decidido, as campanhas precisam investir em entender as nuances e motivações dos eleitores que ainda não escolheram seu candidato. A identificação desses grupos e a criação de mensagens direcionadas são fundamentais.
O cenário eleitoral sugere que a **persuasão** e o **engajamento** serão mais determinantes do que a simples mobilização de bases. As campanhas que conseguirem se conectar genuinamente com as preocupações e anseios dos eleitores independentes terão maiores chances de sucesso.

