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Cessar-fogo Irã-EUA Alivia Tensão Global, Mas Inflação e Juros no Brasil Podem Permanecer Altos, Alertam Bancos

Cessar-fogo no Oriente Médio: Um Fôlego Momentâneo para a Economia Brasileira? Bancos e Corretoras Avaliam Impactos na Inflação e Juros

O recente alívio nas tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã trouxe um sopro de esperança para a economia mundial. No entanto, a grande questão que paira no ar é se essa trégua será suficiente para reverter o cenário de deterioração das expectativas no Brasil.

Embora o arrefecimento geopolítico seja visto com bons olhos, as principais casas de análise do mercado financeiro alertam que as cicatrizes deixadas pela disparada de 50% do petróleo neste ano já alteraram a rota da inflação e da taxa Selic. A cautela, portanto, continua sendo a palavra de ordem.

Conforme informação divulgada pela XP Investimentos, a pausa no conflito é importante, mas as incertezas no Oriente Médio persistem. O encarecimento da energia nos últimos meses já gerou uma pressão global sobre os preços, elevando as taxas de juros globais a um patamar que provavelmente será mais alto do que o projetado antes da crise. Por conta desse choque já absorvido pela economia, a XP mantém uma projeção de inflação mais alta para o Brasil em 2026, de 4,8%, ante 3,8% na estimativa prévia.

Impactos Diretos na Inflação Brasileira: IPCA Sob Pressão

A corretora Warren Rena também ajustou suas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que passou de 4,3% para 4,50%, incorporando os resultados do IPCA-15 de março. A casa alerta que, em um cenário de agravamento total do conflito, o índice inflacionário poderia atingir a marca de 5,30%.

A análise da Warren mostra que o estrago inflacionário não se desfaz imediatamente com a trégua, pois os efeitos do petróleo já transbordaram para a ponta consumidora. A instituição destaca que parte expressiva da alta recente da gasolina não decorre apenas do custo do barril, mas também da ampliação das margens ao longo da cadeia. Os economistas chamam isso de “rigidez de preços para baixo”, onde o repasse da alta do petróleo é rápido, mas a reversão na bomba dificilmente ocorre da noite para o dia.

Selic e a Nova Trajetória: Juros Mais Altos por Mais Tempo

Diante desse balanço de riscos, o afrouxamento da política monetária sofreu impacto direto. Atualmente, a taxa Selic está em 14,75% ao ano, e o mercado revisou o tamanho do ciclo de cortes. Enquanto o Itaú já descartou a possibilidade de cortes de juros nos Estados Unidos para este ano, citando a resiliência da atividade econômica atrelada ao risco inflacionário, no Brasil o cenário também é mais contracionista.

A maioria das instituições abandonou a projeção de que a Selic encerraria o ciclo em 12%. Itaú e Warren Rena agora preveem uma taxa terminal de 13%, com cortes mais graduais de 25 pontos-base. A gestora Azimut Wealth Management aponta que a percepção real de risco é pior, com o mercado de juros futuros já precificando taxas acima de 13,50%.

PIB Brasileiro Resiliente, Mas Com Ressalvas

Apesar do cenário inflacionário e da perspectiva de juros mais altos, as projeções para o PIB seguem demonstrando certa força na maioria das casas consultadas. Itaú e Daycoval mantiveram a estimativa de crescimento em 1,9%, explicando que o impacto negativo dos juros altos e da desaceleração global está sendo compensado pelo aumento nas receitas de exportação de petróleo brasileiro.

Esse colchão econômico brasileiro também é visível no fluxo de capitais. David Chang, do Banco Sofisa, destaca que, apesar da incerteza global, o Brasil se beneficiou. “Os fluxos para mercados emergentes continuaram relativamente favoráveis ao Brasil, mitigando parte dos impactos negativos”, pontua. Ele ressalta que o Ibovespa registrou entrada de R$ 11,65 bilhões de capital estrangeiro recentemente.

O Futuro: Dependência de Gargalos e Cadeias de Suprimentos

Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, avalia que a resultante da crise para 2027 parece ser mais limitada, mas com uma ressalva importante: tudo dependerá da profundidade e duração dos gargalos, e de quão perenes serão seus impactos sobre as cadeias de suprimentos globais.

O consenso das instituições é de que a economia brasileira segue resiliente, impulsionada por ganhos de arrecadação. No entanto, o custo da energia já corroeu parte do poder de compra e gerou uma nítida desancoragem das expectativas do mercado, estreitando fortemente as margens de manobra do Banco Central. O alívio nas tensões no Oriente Médio ajuda, mas não apaga o efeito sobre a inflação e os juros mais altos que o conflito já embutiu na economia de 2026.