A imagem que viria a ser venerada como padroeira do país surgiu de forma humilde, e cresceu em devoção ao longo de séculos, atraindo fiéis, autoridades e controvérsias.
Relatos de milagres, ofertas reais e decisões papais ajudaram a consolidar sua presença na vida religiosa e cultural do Brasil.
Nas últimas décadas, episódios como o atentado de 1978 e boatos políticos reacenderam discussões sobre o significado e a proteção do título, envolvendo tribunais e atores públicos.
conforme informação divulgada pelo Metrópoles
O milagre no Rio Paraíba do Sul e os primeiros devotos
A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada no Rio Paraíba do Sul, em Porto Itaguaçu, no estado de São Paulo, em 12 de outubro de 1717. Naquele dia, os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves buscavam peixe para recepcionar o conde de Assumar, e, após várias tentativas sem sucesso, puxaram do rio uma imagem sem cabeça.
Ao lançarem as redes outra vez, pescaram a cabeça separada da imagem, e, depois de envolverem os achados em um lenço, a pesca tornou-se milagrosamente abundante, segundo a tradição local. A figura de terracota, com cerca de 40 cm, passou a ser objeto de orações na casa de Filipe Pedroso e atraiu fiéis nos anos seguintes.
Do oratório à basílica, coroações e reconhecimento papal
Com o aumento da devoção, foi erguido um oratório, depois uma capela no Morro dos Coqueiros em 1734, e mais tarde a construção de uma basílica, que já recebeu visitantes ilustres, como o príncipe regente Dom Pedro I em 1822, e a princesa Isabel em 1868.
A princesa Isabel ofereceu uma coroa e um manto em agradecimento após pedir a graça de engravidar, e, após o nascimento de seus filhos, retornou em 1888 para entregar uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, e um manto azul anil bordado em ouro e pedrarias.
Em setembro de 1904, a imagem foi coroada em celebração dirigida por Dom José Camargo Barros, com a presença do núncio apostólico e do então presidente Rodrigues Alves. Dois anos depois, o Papa Pio X reconheceu privilégios especiais ao santuário ao conceder ofício e missa própria de Nossa Senhora Aparecida, além de indulgências para peregrinos.
Proclamação como Rainha e Padroeira, e o feriado nacional
A santa foi proclamada Rainha e Padroeira do Brasil em 16 de julho de 1930, por decreto do Papa Pio XI, um ato canônico que só pode ser conferido pela Igreja Católica, por intermédio do papa. No plano civil, a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, oficializou o dia 12 de outubro como feriado nacional consagrado à devoção da Santíssima Virgem Maria sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Essa distinção dupla, religiosa e civil, explica parte do peso simbólico da imagem, que é ao mesmo tempo referência de fé e elemento da cultura pública brasileira.
Atentado, restauração e proteção da imagem original
Em 16 de maio de 1978, durante a missa das 20h, a imagem sofreu um atentado quando houve queda de luz na igreja e Rogério Marcos de Oliveira, de 19 anos, que sofria de transtornos mentais, subiu no nicho, quebrou o vidro de proteção e pegou a imagem, que acabou caindo no chão e sendo partida em quase duzentas partes, a cabeça foi a mais prejudicada.
A restauração foi realizada no Museu de Arte de São Paulo, pelo trabalho da artista plástica Maria Helena Chartuni, e a imagem original reconstruiu-se. Atualmente, a peça está exposta no Santuário Nacional de Aparecida, em um nicho a quatro metros de altura, protegida por urna de vidro blindado.
Polêmica recente, limites civis e canônicos sobre o título
Nas eleições mais recentes, circulou uma fake news afirmando que o candidato Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira, informação que foi negada pela campanha. A matéria remeteu a uma proposta de 2007 do ex-deputado Victorio Galli, que sugeria alterar a denominação para “Padroeira dos brasileiros católicos”, proposta que foi arquivada em 2008.
O episódio ganhou desdobramentos no Supremo Tribunal Federal, com decisões e liminares envolvendo os ministros André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux, e também repercutiu no Tribunal Superior Eleitoral, que reavaliou limites entre remoção de conteúdo e liberdade de expressão. A CNBB chegou a orientar sobre a importância do voto consciente e da proteção aos símbolos de fé do país.
Importante destacar que, conforme entendimento jurídico e a própria natureza do ato, o título de padroeira religiosa de um país é um ato estritamente canônico, isto é, apenas a Igreja Católica, por intermédio do papa, pode fazê-lo. O Congresso Nacional e a Presidência da República podem alterar leis civis, como a Lei nº 6.802 de 1980, mas isso não altera o reconhecimento conferido pela Igreja.
Assim, a história de devoção que começou com uma imagem pescada em 1717 evoluiu para um símbolo nacional protegido na fé e também por normas civis, protagonista de celebrações, histórias pessoais e, até recentemente, de debates públicos sobre o alcance e o respeito aos símbolos religiosos no Brasil.

