Copom em Encruzilhada: Corte de 0,25 p.p. na Selic é o Cenário Previsto por Economistas
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central enfrenta um cenário desafiador em sua próxima reunião. A expectativa predominante entre os economistas é de um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, levando-a de 14,75% para 14,50%. Essa decisão ocorre em um contexto de inflação pressionada por choques externos, como a alta das commodities, e uma atividade econômica que, embora resiliente em seus núcleos, mostra sinais de fadiga sob a política monetária restritiva.
A análise de mercado aponta para a necessidade de “parcimônia” e “ajuste fino” nas decisões do Copom. Manter a taxa de juros em patamares excessivamente restritivos poderia sufocar o crescimento econômico sem necessariamente conter a inflação, cuja origem em grande parte é exógena, ligada a fatores globais.
As projeções e análises de instituições financeiras, como Bank of America (BofA), Planner Investimentos, J.P. Morgan, XP, Austin Rating e ASA, convergem para essa cautela. O objetivo é encontrar um equilíbrio delicado entre o controle inflacionário e a sustentação da atividade econômica. Conforme apurado pelo InfoMoney, essa é a avaliação de diversos especialistas.
Choque das Commodities e Inflação: O Dilema do Copom
Desde o último encontro do Copom em março, o ambiente macroeconômico se tornou menos favorável. O Bank of America (BofA) destaca que a inflação tem se mostrado mais persistente, com elevações marginais nos índices cheios e nos núcleos, em grande parte devido à disparada nos preços do petróleo, intensificada pelo conflito no Oriente Médio. Esse cenário foi agravado pelas dificuldades nos fluxos de demanda pelo Estreito de Ormuz, mantendo os preços do barril de petróleo em patamares elevados e voláteis, conforme ressalta a Planner Investimentos.
O impacto desse choque já se refletiu no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março. O J.P. Morgan observa que, embora a inflação tenha surpreendido negativamente, a alta concentrou-se em poucos itens, especialmente no setor de transportes, refletindo diretamente o custo dos combustíveis. O banco enfatiza a necessidade de “serenidade” por parte do Banco Central para avaliar a durabilidade desse impacto inflacionário.
Projeções de Inflação e Atividade Econômica em Revisão
A escalada dos preços das commodities forçou uma revisão generalizada nas projeções de inflação. Rodolfo Margato, economista da XP, aponta que a previsão de inflação para 2026, que antes do conflito era de 3,8%, saltou para mais de 5%. Leonardo Costa, economista do ASA, e o BofA também revisaram suas projeções para o IPCA, com o BofA prevendo o índice para o final de 2027 em 3,5%. Rodolpho Sartori, da Austin Rating, trabalha com um IPCA de 4,74% para o fechamento deste ano.
Nesse contexto, a ata da última reunião do Copom já indicava a necessidade de uma “restrição monetária maior e por mais tempo”. No entanto, Margato pondera que a manutenção da Selic não seria eficaz para conter um choque exógeno. Sartori complementa, observando que a atividade econômica brasileira já desacelerou significativamente, de 3,7% para 2% em 12 meses, tornando ineficiente manter a taxa de juros elevada unicamente com foco na inflação no momento.
Ritmo de Cortes e Selic Terminal: O Que Esperar do Futuro?
O consenso do mercado aponta para a continuidade dos cortes na Selic, mas em um ritmo de “calibração”. O J.P. Morgan e o BofA esperam uma redução de 0,25 p.p. nesta reunião, com o BofA projetando uma taxa terminal de 13,25% ao final de 2026. A Planner Investimentos projeta cortes de 0,25 p.p. em abril, junho e agosto, com possibilidade de aceleração para 0,50 p.p. até o fim do ano, caso o cenário geopolítico se estabilize.
Margato, da XP, prevê um corte de 0,25 p.p. em abril e de 0,50 p.p. em junho, ressaltando que essa projeção depende de fatores externos, como o fim do conflito ou a estabilização do preço do petróleo Brent. Rodolpho Sartori, da Austin Rating, projeta a Selic terminal em 12,5% para o fim de 2026, mas admite um “viés altista” que pode elevar a taxa a 12,75% ou 13% se a guerra se prolongar. Essa marca de 13% é a aposta de Leonardo Costa, do ASA, e da Suno Research, que veem o Banco Central em uma postura defensiva de “ajuste fino” até que as expectativas de longo prazo voltem a se ancorar.