Polícia Federal flagrou trechos de documento apresentado pelo delator que citam a produção, cronograma e valores, e pediu o restante das páginas e novos esclarecimentos às defesas
Dark Horse volta ao centro do inquérito após a Polícia Federal apontar contradições no depoimento do empresário e delator Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro.
O delator disse ter feito remessas de US$ 12,3 milhões a um fundo nos Estados Unidos, supostamente a pedido do pastor Fabiano Zettel, com aval do banqueiro Daniel Vorcaro, e afirmou acreditar que os recursos seriam investidos em empreendimentos imobiliários.
Segundo a PF, entretanto, um documento apresentado pelo próprio Mineiro menciona expressamente a produção do filme e um cronograma de pagamentos, o que cria pontos de aparente contradição no depoimento, conforme informação divulgada pela Polícia Federal.
Carta menciona produção e cronograma
Os investigadores encontraram na primeira página de uma carta, emitida pela Calixsan Capital Management e endereçada à Entre Investimentos, a justificativa para um cronograma que, segundo a PF, seria necessária para cumprir os prazos da obra cinematográfica.
Conforme a Polícia Federal, “O documento estabelece compromisso total de US$ 24 milhões, a ser integralizado em cronograma iniciado em 20/01/2025, com a justificativa expressa de que ‘time is of the essence to the production of the film’, ‘o tempo é essencial para a produção do filme'”.
A corporação observa que a carta está “em aparente contradição com a afirmação do colaborador de que desconhecia a destinação cinematográfica dos recursos”. Mineiro, segundo a PF, apresentou apenas a primeira página do documento.
Origem dos recursos e sequência de operações
Outra linha de questionamento da Polícia Federal envolve a origem do dinheiro. Mineiro afirmou que os aportes vieram de saques de uma linha de crédito no Master, venda de ativos, ou recursos próprios da Entre Investimentos.
Entretanto, uma planilha apresentada pelo colaborador mostra que a empresa recebeu R$ 12 milhões de uma empresa chamada Super Empreendimentos, apontada pela PF como ligada ao circuito financeiro de Vorcaro, em 12 de fevereiro de 2025.
No dia seguinte, 13 de fevereiro de 2025, foram liquidados R$ 11,7 milhões em operações de câmbio, sequência que, para os investigadores, é compatível com mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
Em uma dessas mensagens, datada de 11 de fevereiro, o banqueiro teria exigido que o câmbio “para o filme” fosse resolvido naquele dia, segundo a PF.
Discrepância em documentos de subscrição e beneficiário efetivo
Nos documentos de subscrição do fundo, a Entre Investimentos declarou ter adquirido as cotas “por conta própria” e que não havia acordo para transferi-las a terceiros.
Na PF, Mineiro disse que havia uma expectativa informal de transferir as cotas para Vorcaro ou para o Master após regularização cadastral. Para os investigadores, essa incompatibilidade pode indicar omissão sobre quem seria o beneficiário efetivo da aplicação.
O delator afirmou também que, após tomar conhecimento da destinação dos recursos ao filme, pediu o resgate integral dos valores e um demonstrativo dos investimentos, mas a PF ressalta que o único e-mail apresentado apenas solicita o saldo aplicado e orientações para o resgate.
Próximos passos do inquérito
Mineiro prestou depoimento em 1º de outubro, na condição de testemunha colaboradora, após acordo de delação premiada homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Diante das contradições, a Polícia Federal pediu a prorrogação do inquérito por mais 90 dias e solicitou à defesa que apresente o documento completo e esclarecimentos sobre a alegação de que o empresário desconhecia a finalidade cinematográfica dos repasses.
A corporação informou ainda que Mineiro poderá ser ouvido novamente para esclarecer os pontos apontados, enquanto os investigadores cruzam mensagens, planilhas e contratos localizados, entre eles, documentos encontrados no aparelho de Daniel Vorcaro.
O caso segue em apuração no inquérito que investiga o financiamento de Dark Horse, com foco em esclarecer a origem dos recursos, a destinação final e eventuais responsabilidades criminais e civis.