Defesa e Minerais Críticos: A Nova Fronteira da Política Externa Brasileira em 2024, Alerta Assessor de Lula
A área de defesa emerge como um dos desafios cruciais para a política externa brasileira nos próximos anos. A conjuntura internacional, marcada pela ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e pela crescente ampliação de conflitos globais, demanda uma atenção redobrada do país.
Essa percepção de vulnerabilidade, especialmente em relação à atuação militar americana na região, impõe uma nova urgência ao debate sobre a defesa nacional. A necessidade de o Brasil se posicionar estrategicamente frente a essas tensões é um ponto central.
A avaliação é de Audo Faleiro, assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República, que destacou esses pontos durante a 2ª Conferência Nacional Política Externa e Inserção Internacional do Brasil. Conforme informação divulgada pelo próprio evento, Faleiro ressaltou a importância de o Brasil definir sua postura em relação ao investimento em defesa, apesar de não ver ameaças imediatas às suas reservas de petróleo ou programa nuclear.
O Dilema do Investimento em Defesa e a Capacidade de Dissuasão
A discussão sobre o investimento em defesa no Brasil é marcada por um dilema social. Enquanto parte da sociedade acredita na natureza pacífica do país, dispensando a necessidade de fortalecimento militar, outra parcela argumenta que a assimetria militar global torna qualquer investimento inútil. Faleiro contrapõe, citando conflitos assimétricos como o entre Estados Unidos e Irã, onde a capacidade de dissuasão se mostrou fundamental.
“Nem sempre o mais forte vence, desde que você tenha uma capacidade de dissuasão bem feita”, afirmou Faleiro, enfatizando que o Brasil é, de fato, vulnerável. Ele sugere que o país precisa pensar sua situação em defesa de forma estratégica, buscando desenvolver capacidades que garantam sua segurança.
Minerais Críticos e Soberania Digital: Desafios Emergentes
Além da defesa, o assessor listou outros cinco desafios urgentes para a política externa brasileira até 2030. Dentre eles, destacam-se a gestão de minerais críticos e terras raras, a soberania digital, o combate ao crime organizado transnacional, a integração regional e a aproximação com países africanos.
No que tange aos minerais críticos, Faleiro apontou a defasagem do arcabouço regulatório brasileiro. Ele mencionou o esforço da atual gestão para criar um Conselho Nacional de Minerais Críticos, visando que o Brasil aproveite sua posição como segundo maior detentor desses recursos estratégicos. A necessidade de investimento em estratégias para consolidar essa posição foi enfatizada.
A soberania digital também foi apontada como uma área onde o Brasil está atrasado. Faleiro alertou para a necessidade de o país se apressar e investir significativamente nessa frente, para não perder o bonde da discussão global sobre o tema.
Crime Organizado e a Reinserção do Brasil na América Latina e África
No combate ao crime organizado transnacional, Faleiro defende que o Brasil saia da defensiva e proponha uma agenda regional. Ele destacou a importância de o tema não ser manipulado para fins políticos, citando a eleição do delegado brasileiro para a direção-geral da Interpol como um passo nessa direção. A intenção é criar uma pauta conjunta para a América Latina, mesmo para países alinhados aos EUA.
A integração regional, contudo, enfrenta obstáculos significativos. A eleição de Javier Milei na Argentina e o cenário eleitoral na Venezuela em 2024 criaram um quadro de “veto cruzado”, paralisando iniciativas como a Unasul e a Celac. O assessor lamentou a atual incapacidade de articulação desses blocos.
Em relação à África, Faleiro reconheceu a simpatia histórica do continente pelo Brasil, mas alertou que outros atores estão mais avançados. Após uma década de “abandono à África”, o Brasil precisa repensar seus instrumentos de política externa e cooperação para reconquistar seu espaço.
Os BRICS e a Paralisação do Bloco Ampliado
O assessor também comentou sobre os BRICS, bloco que agora inclui Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Faleiro considerou a expansão em 2023 um erro que levou à “paralisia” do grupo. Ele citou os conflitos militares entre membros como Irã e Emirados Árabes Unidos como impeditivos para a emissão de declarações conjuntas sobre o Oriente Médio, evidenciando a dificuldade de consenso.
“Hoje os BRICS estão paralisados, porque existe conflito entre países do grupo, agredindo-se militarmente”, declarou Faleiro, lamentando que “não é possível ter consenso dentro do grupo”. Ele expressou dúvida sobre a possibilidade de reverter essa situação.

