Economia Climática: A Próxima Revolução Digital que Pode Criar as Gigantes Globais do Futuro

Economia climática: a nova fronteira para gigantes globais e o alerta aos investidores brasileiros

A história nos ensina que grandes transformações econômicas muitas vezes começam de forma discreta. No final da década de 1970, investir em softwares para computadores pessoais parecia uma aposta arriscada. O mercado era incipiente e poucos imaginavam a dimensão da Revolução Digital que moldaria o mundo.

Hoje, décadas depois, algumas das empresas nascidas naquele período figuram entre as mais valiosas do planeta. Para especialistas em inovação climática, um cenário semelhante está se desenhando. No entanto, uma parcela significativa dos investidores brasileiros ainda não percebeu o potencial dessa nova onda econômica.

Essas percepções foram compartilhadas no programa O Clima na Faria Lima, em entrevista com Júlia Marisa Sekula, cofundadora e CFO da Terradot, e Zé Gustavo, diretor-executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs. Conforme divulgado no programa, a mensagem é clara: as empresas que liderarão os mercados daqui a 40 anos, impulsionadas pelas transformações climáticas, estão surgindo agora.

A comparação com a Revolução Digital e a oportunidade de ouro

Zé Gustavo propõe um exercício para ilustrar o tamanho da oportunidade: imagine a reação de um investidor nos anos 70 diante de um jovem Bill Gates buscando recursos para desenvolver programas para microcomputadores pessoais. Naquela época, seria plausível argumentar que a tecnologia não seria adotada em larga escala. A história, contudo, provou o contrário, com a Microsoft se tornando uma das empresas mais valiosas do mundo.

Essa analogia serve para demonstrar como negócios ainda em estágio inicial podem se tornar protagonistas de mercados inteiros. À medida que as mudanças climáticas impulsionam novas regulações, reconfiguram cadeias produtivas e influenciam decisões de consumo, a demanda por tecnologias que reduzam emissões, promovam a adaptação econômica e protejam contra eventos extremos só tende a crescer.

Na visão de Zé Gustavo, o clima tem o potencial de transformar a sociedade de forma comparável à revolução tecnológica iniciada nos anos 1980. Diferentemente de outros setores, a agenda climática não se restringe a um nicho específico. Júlia Sekula explica que o clima funciona como uma lente aplicável a praticamente todas as atividades econômicas, atravessando bancos, agronegócio, comércio e serviços.

A economia climática: uma lente para inovação em diversos setores

Ao aplicar essa “lente climática”, as empresas começam a identificar novos problemas e, consequentemente, novas oportunidades. Surgem demandas por materiais com menor pegada de carbono, sistemas de monitoramento ambiental mais eficientes, soluções para uma agricultura mais resiliente, inovações em armazenamento de energia, tecnologias de captura de carbono e avanços no tratamento de água e resíduos.

Isso significa que os futuros líderes da economia climática podem emergir de diversas indústrias, e não apenas de companhias tradicionalmente associadas a questões ambientais. Contudo, Zé Gustavo aponta que muitos investidores ainda encaram essa transformação primariamente sob a perspectiva de risco e custo.

Esse comportamento pode resultar na chegada de capital apenas quando os mercados estiverem mais maduros e as empresas já mais valorizadas. Na Revolução Digital, investidores que aguardaram a consolidação da tecnologia perderam a chance de participar das fases iniciais de crescimento de companhias icônicas. Na economia climática, o risco de chegar tarde é consideravelmente similar.

Regulação como motor de novos mercados e a urgência para investidores

Um dos principais impulsionadores dessa nova economia são os mercados regulados. Empresas que hoje buscam e contratam tecnologias climáticas não o fazem apenas por questões de reputação. Muitas já se preparam para regras futuras que poderão impor custos diretos sobre as emissões de carbono.

Júlia Sekula destaca que grandes companhias já estão se adiantando para garantir fornecedores capazes de atender suas demandas futuras em escala e preço. Essa preparação, que pode se concretizar em cinco ou dez anos, já está em curso.

Mecanismos de precificação de carbono e barreiras comerciais ligadas a emissões têm o potencial de criar mercados de grande escala. É perfeitamente viável, segundo a executiva, construir uma empresa de grande porte no Brasil focada em resolver apenas um desses desafios regulatórios.

A transformação envolverá tanto companhias estabelecidas quanto novos negócios. As grandes empresas possuem capital e infraestrutura, mas tendem a se mover mais lentamente. Já as startups demonstram agilidade para testar tecnologias e modelos de negócios com rapidez. Precisamos de grandes empresas em transição, e em paralelo, de empresas de tecnologia que inovem e testem novas soluções velozmente, comenta Zé Gustavo.

A expectativa é que parte das startups seja adquirida por empresas tradicionais, enquanto outras poderão crescer e desafiar os líderes de seus respectivos setores. A disputa pela liderança na economia climática já começou, e no Brasil, a hesitação de investidores tradicionais em apostar em climatechs pode custar caro. Quando as empresas que hoje estão em fase inicial se tornarem líderes, a principal pergunta será por que tão poucos investidores brasileiros perceberam a oportunidade a tempo.

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