Renda Fixa em Tempos de Guerra: Estratégias para Navegar na Incerteza Geopolítica e Proteger seu Capital
A escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã trouxe um clima de incerteza aos mercados globais, impactando diretamente a renda fixa no Brasil. Com o preço do petróleo oscilando e o ciclo de cortes na taxa Selic sob pressão, montar uma carteira equilibrada tornou-se um desafio maior. Contudo, a disciplina e a gestão de risco inteligente podem ser as chaves para atravessar este período turbulento.
Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, destaca que em momentos de guerra, a capacidade de prever o futuro se torna mínima, independentemente do tamanho da equipe de análise. Portanto, o foco deve ser menos em acertar o timing perfeito e mais em administrar os riscos de forma eficaz.
Em entrevista ao InfoMoney, o especialista compartilhou oito lições valiosas para quem investe em renda fixa neste cenário de incerteza. Essas dicas visam proporcionar mais segurança e potencial de retorno, mesmo diante de um ambiente econômico e geopolítico instável. Conheça as estratégias que podem fazer a diferença em seus investimentos.
1. A Arte de Parcelar Aportes e Reduzir Riscos
Para quem dispõe de novos recursos para investir, a recomendação de Ian Lima é dividir os aportes ao longo do tempo, especialmente em títulos de vencimento mais longo. Sem um indicativo claro para uma queda expressiva nas taxas de juros, a pressa em alocar todo o capital de uma vez pode ser prejudicial.
Parcelar a entrada no mercado reduz significativamente o risco de comprar no pior momento. Essa estratégia permite uma entrada mais gradual, mitigando perdas potenciais caso as condições de mercado se alterem abruptamente após um aporte concentrado. A disciplina é fundamental para proteger o capital.
2. Gestão de Risco: O Tamanho da Posição é Crucial
Em períodos de alta incerteza geopolítica, a tentação de aumentar a exposição em momentos de aparente oportunidade pode ser grande. No entanto, o gestor da Inter Asset enfatiza que o tamanho da posição é mais importante que a direção do mercado. Em vez de dobrar a aposta, a estratégia correta é reduzir o tamanho das posições em momentos de estresse e evitar aumentos desnecessários.
Lima relata que a Inter Asset optou por reduzir posições em momentos de exagero do mercado, em vez de aumentá-las. Essa abordagem garante que o investidor consiga atravessar períodos de volatilidade sem ser forçado a vender em prejuízo. Mesmo com posições menores, o potencial de ganho se mantém relevante caso o mercado se normalize.
3. A Combinação Estrutural: Proteção Contra Cenários Adversos
Uma regra estrutural de portfólio defendida por Lima é a combinação de ativos atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, com títulos pós-fixados (atrelados ao CDI ou à Selic). Essa diversificação protege o investidor tanto no cenário base quanto em cenários alternativos, onde imprevistos podem ocorrer.
A lógica é simples: o cenário adverso raramente avisa sua chegada. Quando ele se manifesta, quem possuía proteção inflacionária sai na frente. Os ativos atrelados à inflação atuam como um escudo, protegendo o patrimônio contra choques inflacionários inesperados, como os que podem advir da volatilidade do petróleo.
4. Pós-Fixados: O Porto Seguro da Renda Fixa
Com a taxa Selic em patamares elevados, os títulos pós-fixados oferecem rentabilidade atrativa sem a necessidade de assumir apostas direcionais arriscadas. Lima lembra que, em um cenário de juros altos, não é preciso buscar ativos de menor qualidade para obter retornos satisfatórios.
No contexto atual, os pós-fixados também funcionam como uma importante proteção contra a inflação. Caso o Banco Central seja forçado a desacelerar ou interromper o ciclo de cortes na Selic devido à pressão inflacionária, quem está alocado nesses ativos garante a taxa de remuneração corrente, assegurando previsibilidade.
5. Prefixados de Longo Prazo: Uma Oportunidade com Resalvas
Ian Lima enxerga oportunidades em títulos prefixados com vencimento mais alongado, como os de janeiro de 2029 e 2030. No curto prazo, a persistência da inflação e um ciclo de cortes de juros mais restrito limitam o potencial de ganho de títulos com vencimentos mais curtos (2026 e 2027).
Títulos mais longos oferecem maior espaço para valorização à medida que o cenário econômico se normaliza. Contudo, é crucial ter consciência de que o mercado já precifica boa parte do ciclo de cortes antecipadamente. Lima alerta que quem comprou prefixados em momentos de expectativa de cortes maiores do que os efetivamente realizados, como em agosto de 2023, pode ter tido prejuízos.
6. NTN-Bs de Curto Prazo: Inflação Implícita Sob Controle
As Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-Bs) com vencimentos mais próximos, como 2027 e 2028, perderam parte de seu apelo. Isso ocorreu devido à relevante alta da inflação implícita nesses títulos, impulsionada pela valorização do petróleo. Uma NTN-B 2028 com inflação implícita em torno de 5% ao ano pode ser considerada excessiva para quem acredita na meta de 3% do Banco Central.
Lima ressalta que, para quem confia na atuação do Banco Central, uma inflação implícita muito alta em títulos de curto prazo não se alinha com as expectativas de convergência para a meta. Para investidores que já detêm esses papéis, a recomendação é reduzir gradualmente a exposição à parte mais curta da curva desses títulos.
7. NTN-Bs Longas: Ativos Estruturais para o Longo Prazo
Os títulos do Tesouro IPCA+ com vencimento a partir de 2045 mantêm seu atrativo como ativos estruturais de longo prazo. Eles são menos suscetíveis às flutuações da inflação de curto prazo e carregam o prêmio fiscal de longo prazo do Brasil, que reflete as incertezas sobre o equilíbrio das contas públicas no médio e longo prazo.
Com taxas reais em torno de 7,5% ao ano, Lima considera esse patamar elevado e uma excelente entrada para horizontes de investimento dilatados. Ele exemplifica que a B50 (Tesouro IPCA+ 2050) pode apresentar volatilidade, mas o longo prazo permite ao investidor absorver essas oscilações sem ser forçado a vender em momentos desfavoráveis, potencializando a recuperação e o ganho.
8. Crédito Privado: Fundamentos Sólidos, Prêmios Enxutos
No que diz respeito ao crédito privado, Ian Lima avalia que a maioria das empresas com grau de investimento apresenta balanços financeiros sólidos, o que minimiza o risco sistêmico. Eventos de crédito recentes são vistos como casos isolados, e não como um sinal de deterioração generalizada do mercado.
O principal alerta para o crédito privado reside no risco de liquidez. Em momentos de aversão ao risco, os spreads podem se ampliar não por problemas nos fundamentos das empresas, mas pela necessidade de caixa dos investidores, que acabam vendendo seus ativos. Contudo, com os sinais de arrefecimento da tensão geopolítica, esse risco tende a diminuir, tornando o crédito privado uma opção a ser considerada com cautela.