Setor de fertilizantes brasileiro em alerta máximo: guerra e impostos ameaçam produção e preços de alimentos
O setor de fertilizantes do Brasil, que alcançou um recorde de entregas em 2023, agora se depara com um cenário preocupante. A expectativa é de uma retração de até 15% na produção até 2026, impulsionada não apenas pela instabilidade geopolítica global, mas também por alterações na tributação e na precificação de fretes em andamento no país.
O Sindicato da Indústria de Adubos e Corretivos Agrícolas do Paraná (Sindiadubos-PR) emitiu um alerta sobre os riscos iminentes e cobra ações urgentes do governo federal para conter a disparada de preços que pode afetar toda a cadeia produtiva agrícola.
A combinação de fatores externos e internos coloca o agronegócio brasileiro em xeque, com potencial impacto direto no bolso do consumidor. As informações foram divulgadas pelo Sindiadubos-PR.
Impacto global e nacional nos fertilizantes
Aluísio Schwartz, presidente do Sindiadubos-PR, destaca que os conflitos geopolíticos globais, como a guerra na Ucrânia e no Oriente Médio, somados a questões tributárias e fiscais nacionais, tendem a reduzir a produção e elevar os preços dos alimentos. Ele aponta que as importações de fertilizantes já apresentam queda neste primeiro quadrimestre, com empresas receosas do alto custo e agricultores adiando compras na esperança de melhores preços futuros.
A projeção de Schwartz é de uma redução no uso de fertilizantes em escala mundial devido aos custos elevados. No Brasil, as excelentes safras recentes levaram ao esgotamento das reservas de nutrientes no solo. A consequente diminuição na adubação, segundo ele, pode ser substituída pela redução da área plantada, o que inevitavelmente levará a uma menor produção de alimentos.
“A diminuição da produção, se ocorrer, deve levar à subida dos preços de soja, milho, frango, carne bovina, açúcar, café, no mundo inteiro. A equação final é sobrepreço”, prevê Schwartz. No ano passado, o setor registrou a entrega de 49 milhões de toneladas de fertilizantes, mas a expectativa para este ano é de uma retração entre 10% a 15%, devido aos altos custos e dificuldades logísticas nos portos.
Cadeia de suprimentos sob pressão: da guerra ao PIS/Cofins
O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, por exemplo, pode resultar na perda de 5 milhões de toneladas na produção de fertilizantes fosfatados em apenas um mês de interrupção. Essa região é crucial, sendo responsável por cerca de 40% da saída de enxofre mundial, insumo essencial para a produção de fertilizantes fosfatados solúveis. Antes mesmo da guerra, o preço do enxofre já havia subido significativamente devido à alta demanda para a produção de baterias.
Adicionalmente, o Brasil enfrenta uma queda acentuada na importação de fertilizantes fosfatados da China, devido a proibições de exportação pelo governo chinês. Schwartz não espera uma queda nos preços dos fertilizantes a curto prazo, mesmo com o fim dos conflitos. Ele ressalta que, embora o Brasil tenha tempo para importar fertilizantes para a safra de soja que se inicia em setembro, os grandes volumes retidos podem causar longas filas nos portos e atrasos no plantio.
A escassez de gás natural na Índia levou à redução na produção de ureia, e a Rússia proibiu a exportação de nitrato de amônia, do qual o Brasil importa cerca de 2 milhões de toneladas anuais. O aumento do preço do petróleo, que elevou os fretes internacionais, também já impactou o preço do potássio, que apresentava estabilidade.
Mobilização setorial e demandas ao governo
Além das preocupações com a guerra, o setor de fertilizantes teme os efeitos da tributação de PIS/Cofins sobre fertilizantes, prevista para 1º de abril, em decorrência da Reforma Tributária. A Medida Provisória (MP) 1343/2026, que trata do frete mínimo, também gera apreensão.
Entidades como o Sindiadubos-PR, a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), a Associação dos Misturadores de Adubos do Brasil (AMA) e a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) estão empenhadas em negociações com o governo federal para mitigar esses riscos. As principais demandas incluem o adiamento da cobrança do PIS/Cofins, a revisão dos critérios da tabela do frete mínimo e a negociação com a China para a reabertura urgente das exportações de fosfatados.
Schwartz defende a importância da importação de fosfatados chineses, que somaram mais de 2 milhões de toneladas no ano passado, contribuindo para uma safra recorde. Ele alerta que, caso as proibições chinesas persistam, os agricultores brasileiros enfrentarão preços muito mais elevados sem acesso a esses insumos essenciais.