Fundos de cripto navegam em novos mares: petróleo, ouro e cobre em plataformas de negociação contínuas
Por anos, hedge funds de cripto prosperaram em um ecossistema financeiro paralelo, operando 24 horas por dia em plataformas sem os tradicionais sinos de fechamento, câmaras de compensação ou supervisão regulatória rigorosa. Essas operações, marcadas por estratégias exóticas e retornos voláteis, funcionavam em uma infraestrutura que nunca dormia.
Contudo, o cenário mudou. Essas mesmas plataformas, antes dominadas por tokens digitais, estão agora fervilhando com contratos ligados a petróleo, cobre e o índice Nasdaq 100. A transição reflete o fim dos “lucros fáceis” no universo cripto, impulsionado pela crescente competição institucional.
Gestores de fundos estão aplicando as ferramentas e técnicas desenvolvidas para criptomoedas a ativos tradicionais, onde as ineficiências de preço são mais pronunciadas e a concorrência ainda é limitada. Conforme informações divulgadas pela Bloomberg, essa tendência se intensificou com o estresse geopolítico global.
A Geopolítica Acelera a Migração para Ativos Tradicionais
Quando as tensões entre EUA, Israel e Irã aumentaram, a negociação de contratos de petróleo nos fins de semana disparou na Hyperliquid, uma das plataformas baseadas em blockchain que expandiu seu portfólio para incluir commodities e índices. Originalmente criadas para especulação em cripto, plataformas como Ostium e Lighter agora oferecem contratos atrelados a ativos do mundo real.
Esses mercados operam 24/7, liquidados em stablecoins atreladas ao dólar e sem a necessidade de uma câmara de compensação tradicional. Nos últimos fins de semana, a Hyperliquid serviu como um termômetro para precificar o risco de conflitos mais amplos, horas antes da abertura dos mercados convencionais.
Na Hyperliquid, contratos ligados a ativos tradicionais representaram cerca de 30% do volume total em março. Na Ostium, essa fatia superou 90% em boa parte do último ano, demonstrando a força da migração. Para os gestores, a transição exige pouco retrabalho, pois a infraestrutura tecnológica é a mesma, mas as oportunidades são novas.
Novas Oportunidades em Mercados Ineficientes
Taylor Godwin, fundador do fundo Alpha EV, lançou sua operação em 2022, aproveitando as oportunidades relativamente diretas de lucro no mercado cripto. Estratégias como o “basis trade”, que consistia em comprar Bitcoin à vista e vender um contrato futuro, rendiam taxas anuais de dois dígitos altos. No entanto, esses retornos encolheram significativamente, assim como os de lending de stablecoins.
Godwin passou a explorar outras avenidas. Recentemente, a Alpha EV tem se dedicado a operações que combinam posições em commodities correlacionadas, buscando lucrar com a diferença de preço entre elas, em vez de apostar na direção isolada de um ativo. Uma operação recente envolveu uma posição vendida em prata e uma comprada em cobre na Hyperliquid, gerando retornos anualizados de 20% a 30%.
Embora Godwin mantenha essas posições pequenas, representando menos de 5% do capital alocado nos últimos dois meses, ele prevê um aumento para 10% a 20% à medida que o conjunto de oportunidades se aprofunde. A pesquisa da Crypto Insights Group com 51 gestores, totalizando mais de US$ 3 bilhões sob gestão, indica que um quarto deles espera que a maior parte da nova atividade na Hyperliquid venha de ativos tradicionais.
A Lógica da Exploração de Ineficiências
A lógica por trás dessa migração é clara: mercados novos são inerentemente bagunçados. Preços divergem entre diferentes plataformas, negociações de fim de semana se afastam dos níveis de fechamento dos mercados tradicionais, e relações entre ativos correlacionados se desfazem quando um opera 24/7 e o outro não. Traders quantitativos, treinados para identificar e explorar essas distorções, encontram um território familiar em uma nova embalagem.
Kacper Szafran, do fundo M-Squared, corrobora essa visão. Seu fundo tem se diversificado para o que ele chama de arbitragem de ativos do “mundo real”, explorando diferenças de preço entre venues em blockchain e mercados tradicionais. Essas operações têm gerado entre 1% a 3% ao mês, superando os cerca de 0,5% de estratégias cripto tradicionais focadas em tokens.
Nikita Fadeev, da Fasanara Digital, vê o segmento como incipiente, mas em rápido crescimento. Seu fundo opera estratégias neutras entre produtos de ouro tokenizado e contratos perpétuos atrelados ao ouro, explorando distorções em venues como Binance e OKX. A principal restrição, segundo ele, é a dificuldade de arbitragem entre plataformas cripto e mercados tradicionais como a CME.
O Crescimento dos Ativos do Mundo Real Tokenizados (RWAs)
O valor de mercado de ativos do mundo real tokenizados (RWAs) cresceu impressionantes 360% desde 2025, atingindo US$ 26,5 bilhões, segundo a rwa.xyz. Embora ainda seja uma fração dos trilhões nos mercados tradicionais, esse montante já é suficiente para atrair capital institucional relevante. William Purdy, da Monarq Asset Management, descreve os RWAs como uma expansão natural, para onde a liquidez e o capital institucional estão migrando.
No entanto, essa oportunidade vem com ressalvas. As plataformas que negociam esses ativos não são reguladas da mesma forma que as bolsas tradicionais. A liquidez, embora crescente, ainda é uma fração dos mercados convencionais. Estratégias alavancadas podem ser liquidadas se os feeds de preço divergirem dos valores efetivos de mercado.
Ruchir Gupta, da Gyld Finance, alerta para o risco de gap quando o ativo subjacente é reprecificado, mesmo com oráculos trazendo o preço do mundo real para a blockchain. A própria tokenização carece de padronização e trilhos bem definidos, o que pode levar à criação de tokens do nada em caso de hack, derrubando preços e disparando liquidações forçadas. Para os gestores, porém, é justamente nessas ineficiências que reside a oportunidade, em mercados onde elas persistem por mais tempo do que nos mercados maduros.