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Maduro Fora, Mas a Crise Persiste: Venezuelanos Lutam Contra Pobreza Extrema e Falta de Oportunidades

Venezuela em 2024: Um País de Extremos Onde a Esperança se Desvanece

A Venezuela se apresenta como um palco de contrastes gritantes. Desde a recente intervenção dos Estados Unidos e a captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro, o discurso oficial tem sido de recuperação econômica, impulsionado por promessas americanas de revitalizar a indústria petrolífera. Paralelamente, a soltura de centenas de presos políticos, muitos visivelmente debilitados, traz um alívio cauteloso, mas o medo de novas perseguições paira no ar.

No entanto, para a vasta maioria dos venezuelanos — professores, médicos, trabalhadores — a realidade é outra. A intervenção americana pouco alterou o cotidiano de quem vive em meio aos escombros de uma economia devastada. A perspectiva de melhora é tênue, e a luta pela sobrevivência se intensifica a cada dia.

Essa dura realidade foi compartilhada por quatro professores universitários em Caracas, que detalharam como 13 anos sob o governo Maduro os empurraram para a pobreza extrema. Conforme relatado por eles, a desvalorização da moeda tornou seus salários praticamente inexistentes, forçando-os a vender bens pessoais e buscar alternativas desesperadas para garantir o sustento. Conforme informação divulgada pelo The New York Times Company, a situação é de extrema dificuldade.

Professores Relatam Pobreza Extrema e Salários Irrisórios

Pedro Garcí­a, 59 anos, ex-professor de ciência política, descreve um cenário desolador. Seu salário, que já foi equivalente a apenas US$ 4 por mês, o levou a abandonar as salas de aula para vender comida em filas de postos de combustível. A venda de bens pessoais, como a cama da sogra e sua bicicleta, tornaram-se rotina para complementar uma aposentadoria insuficiente para evitar a fome.

Seu colega economista, Carlos Hermoso, vê com ceticismo as promessas americanas de reinvestimento dos lucros do petróleo. Ele as considera uma “miragem” para a maioria, embora admita que, em desespero, a ideia de a Venezuela se tornar uma “fábrica” para os EUA em sua disputa com a China seria um avanço. A declaração reflete a gravidade da crise, segundo o relato.

Moeda em Queda Livre e Serviços Públicos em Colapso

A desvalorização do bolívar, moeda venezuelana, continua implacável. Desde janeiro, a moeda já perdeu 36% de seu valor, com o salário mínimo mensal mal atingindo 27 centavos de dólar. Apesar das ações americanas na economia, não houve medidas para reforçar as reservas cambiais do Banco Central, diferentemente do que ocorreu com a Argentina.

Recentemente, a presidente Delcy Rodrí­guez anunciou bônus para trabalhadores, totalizando US$ 240 mensais. Contudo, estudos independentes indicam que uma família de cinco pessoas gasta, em média, US$ 610 apenas com alimentação. Os cofres públicos permanecem vazios, e serviços essenciais como transporte, educação e saúde estão em frangalhos.

Desespero e Resignação nas Filas de Ônibus

O pessimismo domina a Venezuela. Em Caricuao, um bairro outrora desejável em Caracas, filas de centenas de pessoas se formam para embarcar em ônibus precários. Muitos desses veículos são “Frankensteins” mecânicos, com peças de diferentes modelos soldadas. O metrô, antes um orgulho sul-americano, não opera com regularidade, aumentando o caos diário.

Yelmira Jimé­nez, líder de uma associação de motoristas, explica que as filas são consequência da escassez de combustível. Motoristas podem passar dias esperando para abastecer. A falta de manutenção e a queda livre da moeda impedem os reparos, forçando improvisos constantes. “Sonhos foram roubados”, lamenta Jimé­nez, “mesmo sendo um país produtor de petróleo”.

Um Legado Corrompido e a Luta pela Sobrevivência

Estudos recentes, como o da Universidade Cató­lica Andrés Bello em 2024, revelam que três quartos da população não possuem renda suficiente para suprir necessidades básicas. Mais da metade enfrenta “pobreza multidimensional”, que abrange educação, moradia e emprego. Há uma década, esses índices eram cerca de 50% menores.

Muitos veem a situação como uma corrupção do legado de Hugo Chá­vez por Maduro. Ana Bracho, ex-funcionária pública, removeu uma tatuagem de Chá­vez, simbolizando sua desilusão. Suas críticas a Maduro a levaram a ser impedida de acessar programas sociais, evidenciando a politização da distribuição de ajuda.

Ana reflete sobre o antigo lema “Juntos, tudo é possível”, questionando se o “tudo” incluía roubo e desnutrição. “Desemprego até a morte — é isso que temos”, conclui, amargurada. A luta pela sobrevivência é diária, e o otimismo, uma raridade.

Aposta no Beisebol: Um Sonho de Fuga para o Futuro

Em meio ao desespero, alguns buscam esperança em sonhos. Nélida Salazar dedica sua vida ao filho, Santiago Jesús Dí­az, de 15 anos, promissor jogador de beisebol com potencial para a liga principal. Para financiar seu treinamento, luvas e dieta especial, Nélida vendeu todos os seus bens.

O marido e o filho mais velho contribuem com a maior parte de seus salários como policiais. Nélida faz doces para vender e, quando falta dinheiro para ovos, tritura cascas para criar um substituto proteico. Ela evita mostrar a geladeira vazia ao filho, sentindo a imensa pressão sobre ele para ter sucesso e mudar o destino da família. “Quando rezo, digo: ‘Por favor, Deus, me dê trabalho, me dê trabalho, me dê trabalho'”, suplica.