As apostas do mercado financeiro em relação à próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sofreram uma reviravolta significativa em poucos dias. O cenário que antes era o favorito, com um corte de 0,50 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, perdeu força. Agora, a maior parte dos analistas aposta em uma redução mais cautelosa, de 0,25 ponto percentual.
Essa mudança de perspectiva é refletida nas negociações do derivativo Opção de Copom, negociado na B3. No início de março, a expectativa de um corte de 0,50 ponto percentual detinha 65,5% de probabilidade implícita. Contudo, a deterioração do cenário externo e a divulgação de dados econômicos levaram a uma inversão.
Na última quinta-feira, 12 de março, a opção por um corte de 0,25 ponto percentual consolidou-se, alcançando 51% das apostas, contra 39% para o corte de 0,50 ponto. Esse movimento indica que o mercado não deixou de prever o início de um ciclo de queda de juros, mas ajustou a magnitude do primeiro passo para um ritmo mais comedido diante de um ambiente de maior incerteza. Conforme informações divulgadas pelo mercado financeiro.
IPCA de Fevereiro e Núcleos Preocupam Analistas
Dois fatores principais explicam essa mudança de humor no mercado. O primeiro foi a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro. Embora o índice cheio tenha apresentado alguma melhora, os detalhes dos componentes mostraram pressões mais persistentes. O IPCA subiu 0,70% em fevereiro, acima do esperado, e a inflação acumulada em 12 meses caiu para 3,81%.
No entanto, a composição do índice gerou preocupação. O UBS BB destacou uma “surpresa altista, núcleos mais firmes e riscos do petróleo à frente”, apontando que a média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central subiu 0,62% no mês. A XP reforçou essa visão, afirmando que fevereiro mostrou “reaceleração da inflação subjacente, com serviços em patamar elevado”.
Choque do Petróleo Aumenta a Incerteza para o Copom
O segundo vetor de cautela é a recente alta nos preços do petróleo, impulsionada pela piora do conflito no Oriente Médio. A commodity voltou a subir em um momento crucial, às vésperas da reunião do Copom, adicionando uma camada de incerteza à trajetória da inflação no Brasil. O UBS BB calculou que a defasagem entre a gasolina doméstica e a paridade internacional saltou de cerca de 5% para aproximadamente 35%.
O banco estima que um reajuste de 10% na gasolina nas refinarias pode impactar o IPCA em cerca de 30 pontos-base diretamente, e próximo de 50 pontos-base com efeitos secundários. O Goldman Sachs, por sua vez, revisou sua projeção de inflação para 2026 e passou a esperar um início de ciclo de cortes de 25 pontos-base. O BNP Paribas também voltou a projetar um corte de 0,25 ponto, citando a alta do petróleo e a incerteza sobre a duração da guerra como fatores que alteram o balanço de riscos.
Perspectivas Divergentes e Cenários Possíveis
Nem todos os analistas, contudo, migraram para a aposta de um corte menor. O JPMorgan ainda espera uma redução de 0,50 ponto na próxima reunião, argumentando que o Copom deve “olhar além do choque do petróleo” se ele for visto como temporário. Para o banco, a política monetária opera em um horizonte mais longo.
A instituição reconhece, porém, que uma postura mais conservadora do Banco Central pode ganhar força diante de uma combinação de riscos mais acentuada, como petróleo acima de US$ 100 por barril por mais tempo, um câmbio mais fraco e decisões domésticas que piorem o quadro fiscal. Esse cenário, embora considerado pouco provável no curto prazo, sugere que a margem para um corte maior na Selic ficou mais estreita para o Copom.