Nagasaki relembra 81 anos do ataque atômico e se opõe à dissuasão nuclear em meio a debates de defesa
Nagasaki, no sudoeste do Japão, realizou neste domingo (9) uma cerimônia comovente para marcar os 81 anos desde que os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre a cidade. O evento, marcado por um minuto de silêncio às 11h02, horário exato do bombardeio, trouxe à tona a dor e o sofrimento de um passado devastador.
O prefeito de Nagasaki, Shiro Suzuki, usou a ocasião para fazer um apelo contundente contra as armas nucleares, classificando-as como um “mal absoluto”. Suas palavras ecoaram a preocupação crescente com a política de defesa do Japão, que tem gerado especulações sobre uma possível flexibilização dos princípios antinucleares do país.
A cerimônia ocorreu em um momento delicado, com o governo japonês revisando sua política de defesa e fortalecendo suas capacidades militares. A tensão entre a memória da tragédia atômica e as novas diretrizes de segurança nacional foi palpável, com sobreviventes expressando sua frustração diante do que consideram um risco à paz.
Prefeito de Nagasaki: “Armas nucleares são um mal absoluto”
Em seu discurso no Parque da Paz, o prefeito Shiro Suzuki foi enfático ao criticar a teoria da dissuasão nuclear, argumentando que os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki provaram ser a posse de tais armas um caminho perigoso. “A teoria da dissuasão nuclear é extremamente perigosa e frágil. As armas nucleares não são um ‘mal necessário’, mas um ‘mal absoluto’, e jamais poderão coexistir com a humanidade”, declarou Suzuki.
Ele dirigiu um apelo direto aos líderes de nações nucleares e àquelas que dependem da dissuasão nuclear, alertando: “quanto mais se apoiam na dissuasão nuclear, mais aumentam o risco de uma guerra nuclear”. Suzuki também instou o governo japonês a manter firmemente os três princípios antinucleares do pós-guerra, que incluem não possuir, não fabricar e não permitir a entrada de armas nucleares no país.
Revisão da política de defesa e o “guarda-chuva nuclear” dos EUA
A cerimônia de Nagasaki coincidiu com a revisão da política de defesa do Japão pela primeira-ministra Sanae Takaichi. Há especulações na imprensa japonesa de que Takaichi, defensora da dissuasão nuclear, poderia abrir espaço para a presença de armas nucleares no país, o que contrariaria o terceiro princípio antinuclear. Takaichi reiterou a política de adotar uma “abordagem realista e pragmática” para buscar um mundo sem armas nucleares, mas evitou reafirmar explicitamente os três princípios.
Tóquio se recusa a assinar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN), alegando estar sob a proteção do “guarda-chuva nuclear” dos Estados Unidos. A primeira-ministra afirmou que o Japão trabalha dentro dos limites do Tratado de Não Proliferação Nuclear e que as decisões sobre o TPAN serão tomadas com base na segurança nacional e no impulso ao desarmamento nuclear.
Sobreviventes expressam frustração e temem o esquecimento
Os sobreviventes dos ataques atômicos, conhecidos como hibakusha, expressaram frustração com o que veem como um apoio insincero do governo à dissuasão nuclear. O medo de que os princípios antinucleares possam ser flexibilizados motivou protestos em Hiroshima e Nagasaki. O número de sobreviventes diminui a cada ano, com a idade média ultrapassando os 86 anos.
A preocupação com o desvanecimento da memória é real, pois os mais jovens não têm lembranças claras do ataque. A cerimônia em Nagasaki é um lembrete vital das consequências devastadoras da guerra nuclear e um apelo contínuo pela paz e pelo desarmamento global, em um mundo onde o debate sobre armas nucleares se torna cada vez mais urgente.
O ataque que mudou a história
Os Estados Unidos lançaram a bomba atômica sobre Nagasaki em 9 de agosto de 1945, matando cerca de 70 mil pessoas até o final daquele ano. Este evento ocorreu três dias após o bombardeio de Hiroshima, que resultou em aproximadamente 140 mil mortes. O Japão anunciou sua rendição em 15 de agosto de 1945, marcando o fim da Segunda Guerra Mundial.
A bomba lançada sobre Nagasaki era de plutônio e ficou conhecida como “Fat Man”. Representantes de mais de 90 países estiveram presentes na cerimônia, unindo-se em um momento de reflexão sobre os horrores da guerra e a importância da paz.

