Oscar e FIIs: A conexão inesperada entre o brilho do cinema e os rendimentos dos fundos imobiliários de shoppings
Enquanto Hollywood se prepara para mais uma celebração do Oscar, com o Brasil novamente em destaque com indicações importantes, o reflexo dessa efervescência cultural se estende para além das salas de cinema. A força de grandes lançamentos cinematográficos, como o filme brasileiro que concorre em categorias relevantes, tem um impacto direto e mensurável nos resultados de fundos imobiliários que investem em shoppings centers.
O sucesso nas bilheterias não se traduz apenas em aplausos e reconhecimento para os filmes, mas também em um aumento significativo no fluxo de visitantes e, consequentemente, nas vendas dentro dos empreendimentos comerciais. Essa relação demonstra como a indústria cinematográfica é uma peça-chave na engrenagem que move o varejo e, por extensão, os fundos que dele dependem.
Entender essa dinâmica é fundamental para investidores de fundos imobiliários, pois o desempenho do cinema, impulsionado por eventos como o Oscar, pode ser um indicador importante para a saúde financeira desses empreendimentos. Conforme informações divulgadas por especialistas do setor, essa conexão é mais forte do que muitos imaginam.
O cinema como âncora para o fluxo de consumidores em shoppings
Alexandre Machado, gestor do fundo HGBS11 (Hedge Brasil Shopping), um dos principais fundos imobiliários de shopping do país, destaca a relevância contínua do cinema na atratividade dos shoppings. Ele afirma que “são pouquíssimos os shoppings que se dão ao luxo de não ter cinema.” O setor ainda funciona como um “destino dentro do shopping e ajuda a trazer público para dentro do empreendimento”, mesmo com as mudanças de hábitos observadas nos últimos anos.
A ida ao cinema, segundo Machado, frequentemente desencadeia uma jornada de consumo mais ampla. Os espectadores, após assistirem a um filme, tendem a permanecer no shopping, aproveitando para jantar, tomar um café ou realizar compras. Essa permanência prolongada contribui para o aumento de receitas em setores como estacionamento e alimentação, beneficiando diretamente os empreendimentos.
Para os fundos imobiliários do setor, essa correlação é vital. O cinema se mantém como um componente essencial para sustentar a circulação de pessoas e o consumo, fatores que, em última instância, elevam as receitas e os resultados distribuídos aos cotistas. A presença de salas de cinema ativas é, portanto, um diferencial competitivo para os shoppings.
Impacto sazonal do cinema nos resultados dos shoppings
Um estudo interno realizado pela gestora Hedge buscou quantificar a relação entre o fluxo de cinemas, o movimento de veículos e as vendas na praça de alimentação. A conclusão apontou que a correlação existe, mas o impacto varia ao longo do ano.
Machado explica que o cinema tende a ter um papel mais relevante nos períodos de menor movimento do varejo. “Nos meses em que o shopping naturalmente tem fluxo mais baixo, como fevereiro ou setembro, quando surge um lançamento forte de cinema, o impacto na praça de alimentação e no fluxo é muito perceptível.”
Em contrapartida, durante os períodos tradicionalmente fortes para o varejo, como julho, dezembro ou a Black Friday, o desempenho das salas de cinema tem um peso relativo menor no resultado geral dos shoppings. Isso sugere uma estratégia de otimização, onde o cinema atua como um impulsionador em momentos de menor demanda natural.
Recuperação pós-pandemia e o papel do streaming
Apesar da importância estratégica do cinema, o setor ainda enfrenta desafios para se recuperar totalmente do impacto da pandemia. Dados da Ancine indicam que os cinemas brasileiros receberam 180,4 milhões de espectadores em 2019, um número que em 2024 atingiu 131,3 milhões, representando uma queda de cerca de 27% em relação ao patamar pré-pandemia.
Machado atribui parte dessa diferença a fatores estruturais, como as mudanças no comportamento do público e o crescimento acelerado das plataformas de streaming. Ele avalia que “a pandemia acelerou a evolução do streaming e mudou hábitos. Provavelmente existe uma perda estrutural de fluxo que pode estar entre 20% e 25% em relação ao período pré-pandemia.”
Aumento do preço dos ingressos e a inflação
Mesmo com a redução no fluxo de público, o faturamento da indústria cinematográfica tem se mantido com algum fôlego, impulsionado pelo aumento do preço dos ingressos. Contudo, Machado ressalta que esse avanço não acompanhou a inflação.
Segundo ele, o tíquete médio subiu aproximadamente 30% desde 2019, mas “o IPCA praticamente dobrou esse valor. Ou seja, em termos reais o ingresso ficou mais barato.” Essa análise revela que, embora o faturamento nominal tenha crescido, o poder de compra do consumidor em relação ao ingresso de cinema diminuiu.