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Pesquisa Ideia mostra brasileiro acha que governo gasta demais, mas apoia a vinculação ao salário mínimo e manutenção dos pisos de Saúde e Educação

A maioria dos brasileiros vê a gestão do Orçamento público como um desafio sério e, ao mesmo tempo, defende benefícios atrelados ao salário mínimo.

Dados da pesquisa mostram apoio expressivo à vinculação ao salário mínimo, mas também pressão por cortes em emendas parlamentares e em pagamentos acima do teto do funcionalismo.

Os números e análises a seguir foram obtidos na pesquisa do Instituto Ideia, encomendada pelo Movimento Orçamento Bem Gasto, conforme informação divulgada pelo Estadão.

Percepção sobre as contas públicas e prioridades

Seis em cada dez brasileiros consideram que a gestão do Orçamento público é um problema grave para a sociedade. Para 55% dos entrevistados, o governo federal gasta atualmente mais do que pode.

Quando perguntados sobre os principais problemas do País, 31% apontaram a corrupção como o principal tema, enquanto a economia, incluindo inflação, desemprego, aumento de impostos e pobreza, veio em segundo lugar, com 17%.

No campo específico das contas públicas, a corrupção também lidera, com 39%, seguida por má gestão e desperdício, 19%, gastos excessivos, 15%, dívida pública elevada, 8%, e arrecadação insuficiente, 4%.

A dívida do governo federal, que atingiu 78,7% do PIB em 2025 e deve se aproximar de 84% do PIB em 2026, é considerada um problema muito grave por 58% dos entrevistados. Essa percepção alimenta o apoio à adoção de regras para limitar o crescimento dos gastos públicos.

Vinculação ao salário mínimo e pisos constitucionais

Um ponto que chama atenção é o apoio majoritário à vinculação ao salário mínimo. Para 78% dos entrevistados, os benefícios pagos pelo governo deveriam ser reajustados anualmente de acordo com o salário mínimo.

Entre os benefícios vinculados ao mínimo estão benefícios previdenciários, o Benefício de Prestação Continuada, o seguro-desemprego e o abono salarial, despesas que têm apresentado crescimento no Orçamento.

Apesar desse apoio, a pesquisa também indica abertura para mudanças na regra para organizar as contas públicas. 31% defendem totalmente uma mudança na regra, e outros 31% apoiam parcialmente a alteração.

Em 2024, o governo propôs e o Congresso aprovou uma regra que mantém a vinculação ao salário mínimo, mas limita o crescimento real acima da inflação a 2,5% ao ano, o mesmo teto previsto no arcabouço fiscal em vigor.

Os pisos constitucionais de Saúde e Educação também foram citados pelos entrevistados. Esses pisos vinculam os gastos à arrecadação e tendem a crescer acima de outras despesas, o que reduz o espaço para gastos discricionários.

Entre os entrevistados, 63% defendem a existência de um valor mínimo obrigatório de investimento, ao mesmo tempo em que 60% apoiam total ou parcialmente mudanças que deem mais liberdade ao governo para remanejar esses recursos.

Emendas parlamentares, supersalários e legitimidade das medidas

A pesquisa revela forte apoio público a restrições em gastos tidos como polêmicos. 76% dos brasileiros disseram apoiar total ou parcialmente a redução do valor das emendas parlamentares.

O Congresso aprovou R$ 62 bilhões para 2026 em emendas, embora parte tenha sido vetada ou bloqueada pelo presidente para recompor o caixa dos ministérios. O Orçamento prevê R$ 50 bilhões em emendas diretamente controladas pelos congressistas em 2026, que representam cerca de 20% das despesas discricionárias do Executivo federal.

Sobre os supersalários, pagos acima do teto constitucional, o Supremo Tribunal Federal determinou o fim dos chamados penduricalhos e discute com o Congresso uma transição para implementar a medida.

Mais da metade da população, 55%, apoiaria totalmente a criação de uma lei para limitar os supersalários. Considerando também os que apoiariam parcialmente, o percentual chega a 73%.

O economista Fabio Giambiagi comentou que as emendas têm peso relevante nas despesas e precisam ser revistas, e que limitar os supersalários, mesmo tendo impacto menor no Orçamento, é importante para conferir legitimidade a outras medidas.

Giambiagi destacou, em suas palavras, “Se você perguntar para qualquer pessoa: você quer pagar mais ou menos imposto? Ela vai dizer: vou querer pagar menos. Você quer que o governo gaste mais ou menos com Saúde e Educação? Ela vai dizer: que gaste mais. Quando você coloca tudo isso no conjunto, a conta não fecha”.

Outros temas sensíveis, como tarifa zero, e o recorte da pesquisa

A possibilidade de financiar a gratuidade do transporte coletivo em todo o País, a chamada tarifa zero, recebeu apoio significativo na pesquisa. Entre favoráveis e muito favoráveis, 73% dos entrevistados se disseram a favor da medida.

Especialistas estimam custo superior a R$ 90 bilhões para os cofres públicos. Ainda assim, 40% dos entrevistados não aceitariam pagar mais impostos para financiar a medida, 24% aceitariam se fosse comprovado que a iniciativa melhora a cidade, e 17% concordariam desde que o valor adicional fosse pequeno.

A pesquisa do Instituto Ideia ouviu 1.518 pessoas entre 3 e 8 de dezembro de 2025, em todas as regiões do País. A margem de erro estimada é de 2,5 pontos porcentuais, para mais ou para menos.

Os resultados mostram contradições nas preferências públicas, com apoio a benefícios vinculados ao salário mínimo, e ao mesmo tempo preocupação com a dívida e a necessidade de controlar gastos. Essas contradições, segundo especialistas consultados na pesquisa, exigem diálogos transparentes do governo sobre prioridades e escolhas fiscais.