Petróleo em alta: Aumento de 10% no barril pode adicionar até 0,7 ponto percentual à inflação brasileira, alerta Itaú

O recente avanço nos preços do petróleo no mercado internacional já começa a sentir seus efeitos no bolso do brasileiro. O custo de vida no país está sob pressão, com reflexos diretos nos preços dos combustíveis e dos alimentos. Mas qual o real impacto dessa alta no orçamento familiar e na economia nacional? Uma análise detalhada do departamento de pesquisa macroeconômica do Itaú buscou quantificar esse efeito.

Segundo o estudo divulgado pelo banco, um **aumento de 10% no preço do barril de petróleo** pode resultar em um impacto total de **0,5 a 0,7 ponto percentual** no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação no Brasil. Essa elevação pode fazer com que a inflação, inicialmente prevista abaixo de 4% para o ano, facilmente alcance patamares entre 4,5% e 4,7%.

O repasse desses custos já se mostra evidente na economia. O Boletim Focus, que compila as expectativas de mercado, revisou a projeção de inflação para 2026, ultrapassando o teto das estimativas iniciais. Conforme informação divulgada pelo Itaú, um choque de 10% no petróleo eleva o IPCA em cerca de 0,2 ponto percentual de forma direta e até 0,5 ponto percentual de forma indireta, somando um impacto entre 0,5 e 0,7 ponto percentual.

Impacto Direto e Indireto no Bolso do Consumidor

A análise do Itaú, elaborada pelas economistas Julia Gottlieb e Luciana Rabelo, detalha que a alta da inflação ocorre principalmente por dois canais. O canal direto é o mais sentido pelo consumidor, afetando diretamente os preços dos combustíveis e da energia elétrica, que se refletem rapidamente nos índices de preços. De acordo com o documento, cada aumento de 10% no petróleo gera um impacto direto fixo de 0,2 ponto percentual na inflação.

O canal indireto, por sua vez, é calculado com base nos custos intermediários de produção e transporte. Este repasse é mais difuso pelas cadeias produtivas e apresenta defasagens temporais, tornando seu cálculo mais complexo. Utilizando modelos econométricos e a Tabela de Recursos e Usos (TRU) do IBGE, o estudo estima que este impacto indireto pode variar de 0,3 a 0,5 ponto percentual no IPCA.

Diesel e Derivados Pressionam a Inflação

A decomposição do estudo do Itaú revela que cerca de um terço do efeito indireto total deriva do óleo diesel, o que reflete diretamente os custos de frete e transporte de mercadorias. Essa influência é crucial, pois o diesel impacta a logística de praticamente todos os setores da economia brasileira.

Os demais derivados de petróleo respondem pela parcela mais expressiva da pressão inflacionária. Isso demonstra a ampla difusão do aumento de custos para múltiplos insumos industriais e para a produção de embalagens, que são essenciais para o comércio de bens de consumo. Dados recentes dos Índices Gerais de Preços (IGPs) confirmam que o repasse para o IPCA tem ocorrido com defasagens curtas e transmissão veloz, atingindo os bens de consumo final.

Inflação Acima de 5% e Cautela do Banco Central

O cenário-base projetado pelo Itaú aponta para uma inflação de 5,2% ao final de 2026, considerando um preço médio do petróleo de US$ 85 por barril e uma taxa de câmbio de R$ 5,15. Os analistas observam que o núcleo reponderado da inflação, que exclui distorções temporárias, já vem incorporando o choque do petróleo, indicando uma transmissão mais visível para itens com maior exposição aos derivados. Isso significa que o impacto inflacionário já se espalhou para além da gasolina, tornando a inflação mais persistente.

Os economistas ressaltam que o impacto potencial da alta do petróleo na inflação pode ser ainda maior, configurando um balanço de riscos com viés de alta. Diante deste cenário, o estudo sugere que o Banco Central deve manter maior cautela na condução do ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic), avaliando cuidadosamente os desdobramentos da pressão inflacionária para a tomada de decisões futuras.

By Vanessa